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    Associação de Defesa do Ambiente

     

    Comunicado
    à imprensa

    20 de Outubro
    de 2004

     

    A
    destruição da Quinta dos Ingleses em Leça da Palmeira

    Mais uma
    quinta histórica barbaramente assassinada

     

    1. Conforme notícia publicada no
    JN de 18 de Outubro, que pudemos depois confirmar no local, o rico património
    arbóreo da Quinta dos Ingleses, em Leça da Palmeira, constituído por um notável
    conjunto de árvores seculares ocupando cerca de um hectare, foi quase
    integralmente destruído para dar lugar a um condomínio fechado de nove
    habitações, divididas por seis edifícios. Apenas foi poupada a vegetação que
    acompanha o muro da propriedade: algumas árvores de pequeno porte, uns poucos
    arbustos e duas palmeiras. De um golpe, perdeu-se um espaço verde
    insubstituível, o único que existia no núcleo antigo de Leça da Palmeira e que,
    além de ser uma referência paisagística na freguesia e contribuir para o seu
    equilíbrio ambiental, servia de abrigo a numerosas aves.

     

    A obra, lançada pela empresa
    Compétor Imobiliária Lda. segundo projecto do arquitecto Bernardo Ferrão, foi,
    segundo o cartaz afixado no local, licenciada pela Câmara de Matosinhos por
    alvará emitido no passado mês de Setembro. A consulta do projecto (disponível
    em https://www.competor.com) não deixa dúvida de que, com excepção das franjas
    junto à rua, todo o espaço da Quinta virá a ser ocupado por construção ou
    impermeabilizado (com piscina e estacionamento subterrâneo). É por isso óbvio
    que a aprovação de tal projecto implicou a aceitação, por parte da edilidade de
    Matosinhos, deste clamoroso arboricídio. E é também óbvio que o arquitecto
    Bernardo Ferrão teve plena consciência de que o seu projecto significava a
    completa destruição do património paisagístico e arbóreo da Quinta dos
    Ingleses. Acrescente-se que Bernardo Ferrão é professor da Faculdade de
    Arquitectura do Porto e tem obra publicada sobre património arquitectónico;
    mas, ao que parece, um jardim com árvores seculares não é, segundo ele,
    património digno de preservação.

     

    Estamos assim perante um
    gravíssimo caso de delapidação do património natural às mãos da especulação
    imobiliária com a conivência do poder político. E neste caso também nos choca o
    desfasamento entre o discurso e a prática, entre as proclamações
    grandiloquentes e as decisões à porta fechada que as desmentem. A Câmara de
    Matosinhos patrocina um Centro de Educação Ambiental e ufana-se de um Plano
    Municipal do Ambiente que inclui, entre outras acções, a de elaborar a «Carta
    Verde do Concelho» e a de «descentralizar a criação de espaços verdes»; mas a
    aprovação de tão nefasto projecto faz duvidar seriamente da sinceridade de tais
    compromissos. E a propaganda ao empreendimento feita pela Compétor Imobiliária
    Lda. merece, pela sua rasteira desfaçatez, especial denúncia: a empresa
    orgulha-se de, com esta obra, «se posicionar num referencial exemplar de
    integração urbanística no meio ambiente», «conjugando a estética arquitectónica
    com a perfeita integração no meio ambiente, preservando o “palacete” e os
    exemplares arbóreos existentes no mesmo». Esperará a Compétor que uma mentira
    tão descarada prevaleça sobre a miserável realidade? Não será este um caso
    flagrante de publicidade enganosa?

     

    2. Este destrutivo exemplo de
    combinação da voracidade imobiliária com a complacência dos serviços municipais
    repete-se hoje um pouco por todo o país. Num momento em que se revêem os Planos
    Directores Municipais, é imprescindível a criação de mecanismos de protecção
    legal de todas as áreas verdes, sejam elas privadas ou públicas, que tenham
    assinalável importância ambiental e paisagística. As Câmaras estão legalmente obrigadas
    a definir a sua «estrutura ecológica municipal», a qual, segundo o Decreto-Lei
    n.º 380/99, é constituída pelos «valores e sistemas fundamentais para a
    protecção e valorização ambiental dos espaços rurais e urbanos, designadamente
    as áreas de reserva ecológica». Em área urbana, essa estrutura ecológica não
    pode deixar de integrar espaços privados como as antigas quintas de recreio,
    que são frequentemente – como era a Quinta dos Ingleses em Leça e são ainda
    algumas quintas da Foz Velha – o último reduto verde de dimensão significativa
    em zonas densamente construídas.

     

    Em Leça, foi já tarde demais para
    a Quinta dos Ingleses. Iremos ainda a tempo, no Porto, de salvar a Quinta de
    Montebelo, que perdeu o estatuto de «verde privado a salvaguardar» na mais
    recente versão do PDM? Ainda poderá ser travada a galopante transformação das
    nossas cidades em irrespiráveis selvas de betão?

     

     

    Para mais informações: Paulo
    Araújo: 93 363 10 09

    Bernardino
    Guimarães: 91 994 15 82

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    Categorias: Árvores e jardins

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