A convivência das cidades com os rios tem sido muito pouco saudável. É
    o caso da Ribeira da Granja, encanada em cerca de 80% do seu percurso. Há
    que pôr termo a esta visão separatista do ambiente: os cursos de água devem
    conviver com o tecido urbano de forma tão natural quanto possível e ser
    respeitados enquanto tal. Numa cidade, assumem a função primordial de
    corredores ecológicos, albergando uma rica fauna e flora e contribuindo para
    uma cidade mais sustentável e alegre.

    Em boa hora decidiu a Câmara Municipal do Porto (CMP) encomendar a
    “Estratégia de Valorização do Vale da Ribeira da Granja”. Finalmente, a
    autarquia parece determinada em cessar a empenhada tarefa iniciada por outro
    executivo e que consistia em “esconder” a Ribeira dos portuenses, como se esta
    não devesse existir ou não fosse suficientemente digna para a cidade. A Campo
    Aberto felicita a CMP por esta iniciativa e contribuirá naquilo que lhe for
    possível para a revitalização daquele que é o último tributário do Douro.

    Gostaríamos de sugerir alguns cuidados para que a estratégia possa ser um sucesso:

    • toda a vegetação autóctone das margens deverá ser preservada, recomendado-se a plantação em todo o curso de espécies ripícolas como o salgueiro, amieiro e freixo, para além de vários arbustos;
    • neste contexto, o uso de maquinaria pesada deverá ser rejeitado em toda a linha, priviligiando-se métodos que ofendam o solo o menospossível, bem como a vegetação rasteira e arbustiva já instalada;
    • estruturas semelhantes a enrocamentos, existentes em Ramalde, são de todo desaconselhadas, devendo o rio ser revertido à sua forma natural.

    Em muitos casos, Ribeira e campos adjacentes criam um conjunto único
    que merecia ser preservado. Salvar a Ribeira da Granja também é, portanto,
    manter a função agrícola de vários terrenos, evitando a sua ocupação por
    urbanizações que por norma são, hoje em dia, profundamente desqualificadoras do
    território, tornando-o monótono e sem diversidade – o oposto, portanto, de uma
    política orientada para a qualidade de vida. Cremos que o mais sensato seria
    impor uma moratória à ocupação de terrenos livres (excluindo-se eventualmente,
    numa decisão caso a caso, os situados em espaços de colmatação e em frentes
    urbanas consolidadas). Naturalmente que todas estas alterações deveriam ficar
    patentes no futuro Plano Director Municipal (PDM) e ser aplicadas caso a CMP
    venha a estabelecer Medidas Preventivas enquanto aquele não entra em vigor.

    Por outro lado, a Campo Aberto sugere diversos usos do solo
    compatíveis com a recuperação da Ribeira e que representam mesmo uma mais valia
    para ela e para os habitantes da cidade: plantação de hortas pedagógicas,
    criação de percursos pedestres interpretados (com um grande potencial para
    actividades de educação ambiental) e de pistas para ciclismo, construção de um
    viveiro de espécies autóctones, de um pequeno jardim botânico com plantas
    típicas dos ambientes ribeirinhos, palustres e agrícolas (com as culturas mais
    comuns da região), de um núcleo museológico e de uma pequena biblioteca
    dedicada às questões ambientais (“ecoteca”) com uma secção especial para os
    mais novos. Para tal seria interessante que a CMP adquirisse e recuperasse uma
    antiga casa rural abandonada, dando‑lhe assim uma vida nova e um uso
    saudável e educativo.

    A expansão da malha urbana aos terrenos disponíveis acarreterá o
    agravamento das cheias que já hoje se verificam pelo mesmo motivo, ou seja, a
    ocupação indiscriminada dos solos que antes absorviam boa parte da
    pluviosidade.

    Perto da Quinta da Prelada existe um viaduto de grande largura sobre a
    VCI que se encontra abandonado. A Norte e a Sul existem amplos terrenos que
    também importa salvaguardar. A Campo Aberto propõe que o viaduto seja
    aproveitado para a criação um corredor verde entre eles. Bastaria para isso que
    fosse adaptado através da plantação de espécies vegetais apropriadas. Estas
    teriam, ainda, a função de isolamento acústico.

    A Campo Aberto espera agora que se passe à acção, ou seja, que a
    recuperação da Ribeira da Granja seja uma realidade – o que será moroso, é
    certo, dadas as enormes dificuldades a vencer – no quadro de diálogo que tem
    imperado na matéria. O Pelouro do Ambiente e do Urbanismo e Mobilidade deverão
    trabalhar em conjunto por forma a conciliar, na prática, aquilo que se sabe da
    teoria: o ambiente com o ordenamento do território.

    Se a melhoria do ambiente for realmente uma prioridade, a
    requalificação da Ribeira da Granja não pode deixar de ir para a frente.

    Para aceder ao parecer completo da
    Campo Aberto e a um mapa interactivo da Ribeira da Granja, visite
    https://urbanismo.no.sapo.pt/granja (agradecíamos a divulgação deste endereço e
    do correio electrónico da associação, se possível).

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