• Ago : 11 : 2014 - Apelo ao boicote de alimentos com milho transgénico
  • Nov : 23 : 2011 - Petição pela salvaguarda das Sete Fontes
  • Jul : 6 : 2011 - Perigo para Paisagem Protegida Valongo
  • Jun : 17 : 2010 - Corte de Árvores na Circunvalação – resposta da C.M. Porto
  • Jun : 15 : 2010 - Corte de Árvores na Circunvalação

ANTES DE FUKUSHIMA, ANTES DE CHERNOBIL: FERREL, HÁ 40 ANOS

A Campo Aberto congratula-se com a comemoração, no domingo 13 de março de 2016, em Ferrel, concelho de Peniche, da marcha de protesto do povo daquela aldeia, em 15 de março de 1976, contra as intenções governamentais da época de construir ali «a primeira central nuclear portuguesa».

Apresentamos adiante o programa das comemorações e as informações recebidas dos organizadores. Note-se que há 10 anos, em 19 de março de 2006, se comemoraram ali os 30 anos desse acontecimento, tendo a Campo Aberto desempenhado papel ativo na evocação.

A propósito, inserimos mais adiante o editorial intitulado «Somos todos moradores de Ferrel», datado de 8 de junho de 1976 e publicado em setembro de 1976 na coleção de livros Viver É Preciso, série Cadernos de Ecologia e Sociedade, que faz parte de uma linhagem iniciada em 1974 e que veio a constituir em 2000 o pano de fundo e os antecedentes reconhecidos na fundação da Campo Aberto, que se se situa nessa tradição.

Ferrel

Município de Peniche e Freguesia de Ferrel
assinalam os 40 da Marcha do Povo de Ferrel Contra a Central Nuclear

No domingo dia 13 de março de 2016, em Ferrel a partir das 10:30, a Câmara Municipal de Peniche e a Junta de Freguesia de Ferrel assinalam a primeira marcha popular contra a instalação de uma central nuclear em Portugal, realizada há 40 anos. Para o efeito, com a colaboração do jornal Gazeta das Caldas e da rádio 102 FM, levam a cabo um conjunto de atividades, que incluem o descerramento de uma lápide evocativa dos 40 anos, a apresentação de uma exposição evocativa, uma peça de teatro alusiva à luta antinuclear, bem como uma ida à Antena no Moinho Velho, que visa recrear o trajeto efetuado na manhã de segunda-feira, 15 de março de 1976, quando o povo de Ferrel disse «Não», levando a cabo a primeira ação expressiva contra a central nuclear que estava projetada para aquela localidade.

A cerimónia evocativa contará com intervenções do Presidente da Câmara Municipal de Peniche, António José Correia, do Presidente da Junta de Freguesia de Ferrel, Silvino João, e Jorge Silva Jorge todos participantes na marcha de há 40 anos. Intervirão também pessoas que contribuíram na época para a divulgação da causa antinuclear, nomeadamente José Luis Almeida e Silva da Gazeta das Caldas e António Eloy.

A exposição evocativa integra a apresentação do Wave Roller, estrutura de aproveitamento da energia das ondas em desenvolvimento na zona prevista para a construção da central nuclear

cartaz programa 40 anos ferrel

SOMOS TODOS MORADORES DE FERREL (ESCRITO EM JUNHO 1976)

O texto que se segue é o editorial do n.º 2 dos Cadernos de Ecologia e Sociedade, constitutivo do n.º 5 da coleção de livros Viver É Preciso editada nas Edições Afrontamento, no Porto, desde 1974, orientada por José Carlos Costa Marques (então com o nome literário de A. Faia).

Apesar de um tom marcado pelos debates, entusiasmos, convicções e também algumas ilusões típicas da época, o texto, além de historicamente fidedigno, poderia ser subscrito hoje por qualquer pessoa de bom senso que desejasse evitar para Portugal, para a Europa e para o mundo a multiplicação de Chernobis e Fukuximas, exaltando antes os Ferréis que existiram, por causa dos Ferréis que não chegaram a ser. Só os subtítulos foram acrescentados, tudo o resto sendo da data apontada.

Editorial

Em Março de 1976, o povo de Ferrel mostrou o caminho: Portugal, em busca de outra Índia, passou a ter no povo de Ferrel o seu Infante das Novas Naus.

Quando os pescadores e camponeses de uma pequena aldeia marítima do litoral de Peniche tocam os sinos a rebate para dizer NÃO! à central nuclear que lhes querem impingir, estão a lançar mão de um fundo telúrico ancestral para a abertura das novas rotas do futuro do mundo. Graças a eles, Portugal pode, se quiser, se os Velhos do Restelo dos gabinetes da capital souberem recuar a tempo na sua loucura suicida, ser o primeiro país do mundo a pronunciar-se contra o holocausto no seu território.

Industriocracia

Mas, atenção. Uma grande contra-ofensiva se prepara nos estados-maiores da industriocracia. A companhia de electricidade, aureolada agora de prestígio nacionalizado, fazendo prever na sua sigla EdP (macaqueada da sua congénere francesa EDF, useira e vezeira na arte de mentir sabiamente) a táctica que vai usar, apresta-se para lançar a confusão envolta em gestos galantes. Um ministro socialista, à revelia de alguns dos seus correligionários, que desde as primeiras horas encontrámos na trincheira da luta anti-nuclear,1 afirma sem vergonha que as centrais nucleares não apresentam riscos. O Palácio das Necessidades envia à URSS «científicas» missões da Junta de Energia Nuclear, para observarem in loco as benesses do átomo proletário. Um II Encontro Nacional de Política Energética, teoricamente destinado a um debate honesto da questão nuclear, faz-se preceder de seriíssimas conferências nas quais se discute se o país se deve hipotecar à radioactividade americana ou canadiana, à água leve ou à água pesada.2. Nos bastidores, as matracas e as granadas lacrimogéneas das múltiplas polícias democráticas aguçam os dentes, aguardando o momento de cair sobre os pescadores, os camponeses, os apanhadores de algas de Ferrel. A intoxicação (des)informativa acelera-se: a democracia gosta que as vítimas tenham votado por larga maioria nos seus carrascos.3 Eles hão-de dizer ao povo de Ferrel que foi o povo que quis fazer da região de Peniche uma região-cobaia, uma região-mártir, pois o povo terá, ao que parece, votado neles.
Numa mão o voto, na outra a matraca.

Partido da Vida contra Partido da Morte
Sobre o povo de Ferrel, vão provavelmente abater-se os fogos cruzados do «progresso» e do «desenvolvimento», do Ministério da Indústria e da Tecnologia e da Electricidade de Portugal, da Junta de Energia Nuclear, da Guarda Nacional Republicana e da Polícia de Segurança Pública, dos partidos salvadores e dos técnicos messias. Provavelmente serão usadas a sedução e o murro, o sorriso e a chantagem, a promessa de mais postos de trabalho e a ameaça pura e simples, a lei escrita e a lei do mais forte, e a velha máximna de todos os impérios, dividir para reinar. Todas as artimanhas e todas as manobras serão provavelmente usadas

tão sábias, tão subtis e tão peritas
que não podem sequer ser bem descritas

Ferrel é já a trincheira que separará os portugueses em dois novos «partidos»: o partido da Morte e, do outro lado, do lado dos moradores de Ferrel, o partido da Vida.

Ao lado do povo de Ferrel
Há já quem alerte para a contra-ofensiva que se prepara. O professor Delgado Domingos, catedrático do Instituto Superior Técnico, lúcido estudioso dos problemas energéticos portugueses, começou já a fazê-lo em artigos na imprensa e numa carta ao Movimento Ecológico Português.4 Outros põem o dedo na mesma ferida. É necessário que os moradores de Ferrel, quando começar a apertar o cerco que em volta deles não deixará de fazer-se, encontrem a seu lado todos aqueles que militam no partido da Vida.

Há também já aqueles que, de urna em punho, prometem aos moradores de Ferrel, caso votem ajuizadamente, mandar a central nuclear para o Alentejo. Despudorada hipocrisia, como se, em caso de acidente grave, sempre teoricamente possível, a área afectada não fosse, independentemente do ponto de implantação da central, o pequeno Portugal inteiro! Quando, em Novembro de 1974, o Movimento Ecológico Português, primeiro entre os primeiros, lançou a sua campanha por uma moratória nuclear,5 esses zelosos fariseus respondiam com um silêncio de chumbo. Quando, nas páginas de A Capital, em Maio e Junho de 1975, António Carvalho lançava o seu debate sobre centrais nucleares (veja-se, neste número dos Cadernos de Ecologia e Sociedade, a rubrica A Farsa do Átomo Pacífico), ecoava apenas o silêncio dos infinitos espaços siderais. Mas eis que o povo de Ferrel se levanta e diz NÃO! e toda a tecnocracia e politicaria do reino cadaveroso descobre que sempre desconfiara da gangrena nuclear!

Repetindo Afonso Cautela, com a acção do povo de Ferrel a luta anti-nuclear está finalmente em boas mãos. Mãos, no entanto, que devem encontrar do seu lado milhares de outras mãos. Face às centrais nucleares, somos todos moradores de Ferrel, Ferrel é Portugal inteiro, e o mundo todo.

Frente unida de partidários da Vida
Preparemo-nos. A contra-ofensiva das multinacionais nucleares6 está para deflagrar. É preciso que por toda a parte, nas escolas e nos hospitais, nos bairros e nas fábricas, nas faculdades e nas associações científicas, surjam Comissões de Solidariedade com a Luta do Povo de Ferrel. A região de Peniche tem já a sua CALCAN (Comissão de Apoio à Luta contra a Ameaça Nuclear). Mas é bom que por todo o país a ameaça nuclear encontre uma frente unida de partidários da Vida.

Quando publicámos, em Julho de 1975, o nosso terceiro número O Átomo e a História, sabíamos que estávamos a caminho, mas não supúnhamos que tão cedo o gesto vivo de tocar a rebate os sinos de Ferrel viesse confirmar tão esplendidamente a justeza do nosso grito de alarme. Agora, que a farsa do átomo pacífico vai mostrando sob o manto diáfano da fantasia a nudez forte da verdade, é preciso que a luta anti-nuclear caminhe sobre as suas duas pernas: de um lado, a denúncia da mitologia tecnocrática; de outro, a investigação persistente de um tipo de desenvolvimento harmonioso, contando com as próprias forças, construindo, com o esforço dos técnicos e cientistas e com o saber prático das populações rurais e urbanas a que esse desenvolvimento se destina, uma nova técnica em harmonia com o meio e com o homem que a utilize. A estimular essa investigação se dedicam as páginas que se seguem, e as mais que a seu tempo seguirão.
8 de Junho de 1976
Viver é Preciso

Notas
1 Por exemplo, Alberto Martins de Andrade, desde a primeira hora militante do Movimento Ecológico Português, deputado pelo PS à Assembleia Constituinte, onde pronunciou uma denúncia das centrais nucleares. O seu texto não conseguiu ser publicado no órgão do partido, Portugal Socialista, só tendo vindo a lume na folha informativa da secção do PS de Vila Nova de Gaia. O dr. Rocha Barbosa, médico no Montijo e militante do PS, várias vezes se pronunciou, dentro e fora do MEP, a favor de uma moratória nuclear. No seu conjunto, porém, o PS português parece estar ainda longe da posição tomada pelo seu congénere francês: «O partido socialista francês eleva-se contra a aplicação imediata do plano governamental de implantação de centrais nucleares. Independentemente das observações de fundo que a seu tempo apresentará, o partido socialista pede que sejam realizadas as consultas necessárias ao nível local, regional (conselhos regionais), nacional (deputados). Nessa ocasião, as diferentes perspectivas sobre o desenvolvimento da energia em França poderão ser propostas contraditoriamente, e o partido socialista dará a conhecer as suas próprias opiniões. Na expetativa desse grande debate, o partido socialista pede aos seus aderentes e representantes nas assembleias regionais, que têm a pronunciar-se sobre um plano de localização de centrais nucleares, que se oponham a uma tomada de consideração prematura de projectos que devem ser objecto de um debate global.» (Le Monde, 18 de Janeiro de 1975).

2 Felizmente, algumas dessas conferências deram a palavra aos críticos da energia nuclear, como aquela que, em Junho de 1976, esteve a cargo do economista Daniel Ford, da Union of Concerned Scientists, co-autor do livro The Nuclear Fuel Cycle, analisado neste volume na rubrica Livros no Crivo.

3 Não nos referimos aqui a um tipo particular de democracia (por exemplo, democracia ocidental versus democracia popular), mas em geral ao sistema da manipulação do cidadão pelo voto, o qual se encontra inclusive nas ditaduras modernas, todas elas aliás afirmando-se democráticas (basta pensar na democracia orgânica e nas eleições no Estado Novo salazarista). Preferimos opor sociedades abertas a sociedades fechadas, o que nem sempre coincide com as dicotomias políticas habituais.

4 Veja-se o jornal Frente Ecológica, n.º 7.

5 Ou seja, o adiamento das decisões de implantação de centrais nucleares até que os problemas de segurança envolvidos ganhassem soluções merecedoras de um consenso actualmente inexistente.

6 Westinghouse e General Electric, para citar as que maior importância poderão ter no contexto português.

 

 

Imprimir esta página Imprimir esta página

Um comentário até agora.

  1. Estou solidário com Campo Aberto, com todos os Movimentos e Instituições e com o Povo de Ferrel de 1976 e todos os herdeiros que somos todos nós, os que preferem e lutam pela Vida.

    António d’Alte da Veiga

Deixar comentário