• Ago : 11 : 2014 - Apelo ao boicote de alimentos com milho transgénico
  • Nov : 23 : 2011 - Petição pela salvaguarda das Sete Fontes
  • Jul : 6 : 2011 - Perigo para Paisagem Protegida Valongo
  • Jun : 17 : 2010 - Corte de Árvores na Circunvalação – resposta da C.M. Porto
  • Jun : 15 : 2010 - Corte de Árvores na Circunvalação

Divulgamos abaixo três vertentes sobre a importância das dunas na conservação do litoral e da natureza, com relevo para a vegetação:

1. A propósito dos recentes estragos no litoral

Autor: Nuno Gomes Oliveira, criador e fundador do Parque Biológico de Gaia

2. Seis plantas a proteger na Reserva Ornitológica do Mindelo

Autores: Maria Pires de Carvalho e Paulo Ventura Araújo, dois dos três autores dos livros À sombra de árvores com história e Um Porto de Árvores

3. As plantas que nos protegem: barreira natural contra o avanço do mar

Autora: Lísia Lopes, bióloga, investigadora na Universidade de Aveiro

Calistegia soldanella (Foto: Lísia Lopes)

Estes três textos vão precedidos da seguinte introdução da responsabilidade da Campo Aberto:

CONSERVAR O CORDÃO DUNAR, REGENERAR AS DUNAS

Num texto intitulado «A propósito dos recentes estragos no litoral», Nuno Gomes Oliveira, criador e diretor do Parque Biológico de Gaia, e a quem se deve há pelo menos 40 anos uma ação notável em defesa da preservação da natureza, publicou em 13 de janeiro de 2014, no Jornal de Notícias, um breve mas lúcido e incisivo artigo que tenta combater a memória curta que rapidamente esquece as lições de experiências traumáticas como as destruições provocadas por temporais na nossa faixa litoral. O alcance e impacto dessas destruições fica-se a dever em grande parte à incúria das nossas sociedades e à repetição ad nauseam de erros mais que identificados e dilucidados.

Com autorização do autor, divulgamos agora esse artigo no sítio eletrónico da Campo Aberto. Em pleno verão, para que o veraneio estival se lembre que o inverno lhe sucederá em breve. Os subtítulos são da responsabilidade da Campo Aberto.

Pedimos também a Lísia Lopes, bióloga e investigadora da Universidade de Aveiro, que nos enviasse algumas notas sobre a importância das plantas dunares na proteção do litoral, acompanhadas de algumas imagens.

Este pedido foi feito a propósito da apresentação em Aveiro do livro Maravilhar-se, reaproximar a criança da natureza, versão portuguesa de The Sense of Wonder, de Rachel Carson, que foi apresentado pela Campo Aberto naquela cidade em maio de 2013, de colaboração com a APEA Aveiro (delegação de Aveiro da Associação Portuguesa de Educação Ambiental) e com o Núcleo de Aveiro da Quercus.

Algumas das imagens que Lísia Lopes nos enviou teriam tido inteiro cabimento para enriquecer a edição portuguesa do citado livro de Rachel Carson, mas não a conhecíamos ainda quando a Campo Aberto preparou essa edição e convidou alguns fotógrafos portugueses a ilustrarem o texto. Algumas delas podem ver-se aqui mesmo. A totalidade das imagens que Lísia Lopes nos enviou pode ver-se no nosso álbum do Picasa.

Essas fotografias documentam diversos aspetos das formações dunares nas areias das praias, desde a duna primária ou embrionária à duna secundária mais interior e estabilizada, passando pela zona interdunar e pelas dunas móveis e suas cristas dunares. Numerosas espécies, algumas das quais invasivas e prejudiciais mas a maioria endémicas ou adaptadas, estão documentadas nas imagens belíssimas de Lísia Lopes (entre as invasivas, Acacia longifolia, Carpobrotus edulia, Cortaderia selloana; entre as restantes, Ammophila arenaria, Anagallis monelli, Antirrhinum majus, Artemisia maritima, Bellardia trixago, Cakile maritima, Calystegia soldanella, Corema album, Corynephorus canescens, Cyperus capitatus, Elymus farctus, Eryngium maritimum, Euphorbia paralias, Helichrysum italicum picardii, Iberis procumbens, Juniperus phoenicea subsp. phoenicea, Lotus creticus, Madicago marina, Malcolmia ramosissima, Myrica faya, Otanthus maritimus, Pancratium_maritimum, Pinus pinaster, Polygonum maritimum, Sedum sediforme e Sesseli tortuosum).

O artigo de Lísia Lopes é a aproximar do texto «A propósito dos recentes estragos no litoral», de Nuno Gomes Oliveira, criador e diretor do Parque Biológico de Gaia e ainda do artigo «Seis plantas a proteger na Reserva Ornitológica de Mindelo», com texto e imagens de Maria Pires de Carvalho e Paulo Ventura Araújo.

Lembramos que a Reserva Ornitológica de Mindelo se designa atualmente como Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde e Reserva Ornitológica de Mindelo, cuja criação está registada no Diário da República, 2.a série, N.º 197, de 12 de Outubro de 2009.

Campo Aberto

Corema album (Foto: Lísia Lopes)

A PROPÓSITO DOS RECENTES ESTRAGOS NO LITORAL

De 1981 a 2014: os perigos da memória curta
Num estudo sobre o litoral de Gaia que fiz em 1981, escrevia: «Corre-se, a curto prazo, o perigo de ver o mar avançar sobre áreas de estabelecimentos humanos, com os consequentes riscos e prejuízos», caso não se preservasse o que ainda restava de cordão dunar.

A natureza já nos dava razão, mas não faltaria muito para ser mais expressiva, no Inverno de 1989-90, quando o mar galgou o Cabedelo do Rio Douro e entrou pela barra, fustigando o Passeio Alegre e Massarelos.

Novamente em 1991 o mar provocou sérios prejuízos e «sustos». Num artigo que então publiquei chamava a atenção para a necessidade de proteger o cordão dunar, e denunciava os enrocamentos e paredões que nada resolvem.

O litoral não está nos mapas, está na realidade
Temos que perceber que o litoral não é uma linha como os mapas mostram, mas sim uma faixa. A elevação do nível do mar, a diminuição dos sedimentos transportados pelos rios, a destruição das dunas e arribas e os enrocamentos e paredões, são os principais fatores que afetam o litoral, de acordo com a generalidade dos investigadores.

Destaco a destruição do cordão dunar, defesa natural do continente contra o avanço do mar. Em alguns casos as dunas foram destruídas mas o espaço ainda lá está, sendo possível a sua reconstituição com recurso a técnicas simples, já usadas no princípio do século XIX.

No litoral de Gaia é bem patente o papel que tiveram nos recentes temporais essas técnicas, podendo ver-se grandes extensões de regeneradores dunares, bem carregados de areia, a constituírem barreira eficaz ao avanço da ondulação.

Vila Nova de Gaia (2014) – À esquerda: a acumulação de areia conseguida com os regeneradores dunares, alguns já praticamente cobertos; é o início da nova duna. O passadiço perpendicular de acesso à praia aguentou o temporal. À direita: vê-se bem a importância dos regeneradores dunares a fixarem areia e o passadiço paralelo ao mar, destruído.

Passadiços paralelos… ou perpendiculares ao mar?
Com o objetivo de proteger as dunas do pisoteio dos veraneantes, criaram-se, a partir dos anos oitenta, passadiços sobrelevados em madeira, perpendiculares ao mar, que permitem o acesso às praias.

Mas a recente moda de instalar passadiços paralelos ao mar é responsável, agora, por uma das maiores faturas das destruições feitas pelo mar. Os passadiços perpendiculares são muito menos afetados, enquanto que dos segundos o mar «cobrou» quilómetros.

Embora sejam muito agradáveis para passear, é altura de corrigir os erros, e retirar esses passadiços paralelos ao mar para zonas menos vulneráveis, sob pena de anualmente se gastarem milhões.

É altura de repensar a localização de alguns apoios de praia e bares, mesmo licenciados pelos POOC (Planos de Ordenamento da Orla Costeira), que estão a desafiar a natureza, a ponto de alguns não terem resistido.

Vila Nova de Gaia (2014) – À esquerda: efeito da acumulação de areia nos regeneradores. À direita: o enchimento dos regeneradores e a formação da nova duna.

Reinstalar campos de dunas
Devemos atender ao papel fundamental das defesas naturais e reinstalar campos de dunas nos espaços vagos ao longo da costa arenosa e, mesmo, desocupar espaços para este fim, pois há que ter presente que os peritos estimam que o nível do mar possa subir cerca de 50 cm até ao ano 2050 e que os fenómenos meteorológicos excecionais e violentos venham a ser mais frequentes.

A faixa litoral deve constituir uma almofada que amorteça o impacto do oceano; isso sabe o povo desde há muito e, por isso, as cidades e vilas costeiras sempre se estabeleceram no interior dos estuários, como foi o caso do Porto ou Vila Nova de Gaia até ao século XIX.

É o hábito de ir à praia, que se desenvolveu entre nós na segunda metade do séc. XIX, que faz aparecer casas de veraneio na Granja ou na Foz, não mais parando o crescimento urbanístico. Agora estamos a ver as consequências que no futuro poderão ser piores se não soubermos agir preventivamente face às alterações em curso.

Nuno Gomes Oliveira

SEIS PLANTAS A PROTEGER NA RESERVA ORNITOLÓGICA DO MINDELO

A protecção da natureza, em Portugal, nunca foi uma prioridade, mesmo quando o ambiente fazia parte de uma agenda política que a crise remeteu para segundo plano. O «ambiente» pode ser muita coisa e, de todas as suas possíveis acepções, os nossos governos e autarquias sempre preferiram aquelas que envolvam obra que se veja.

Foi assim que, em nome das «energias renováveis», se destruíram (e destroem) rios e se plantaram ventoinhas por tudo quanto é cume; e foi também assim que, na gestão de áreas ditas protegidas, se esbanjou em desproporcionados centros de interpretação o dinheiro que não havia (nem há) para vigilantes da natureza ou para acções de conservação no terreno. Por isso «área protegida», em Portugal, pouco mais significa que um espaço onde vigoram certas restrições à construção de edifícios ou ao uso do solo. Quanto ao resto, a natureza lá saberá tomar conta de si, desde que as agressões não sejam muitas.

Consta dos anais que a Reserva Ornitológica de Mindelo (ROM), criada em 1957 por iniciativa de Santos Júnior, professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), foi a primeira área oficialmente protegida em Portugal. Situada no concelho de Vila do Conde, logo a sul do rio Ave, e repartida entre as freguesias da Árvore e do Mindelo, ocupava 554 hectares de dunas, charcos e pinhais.

Ainda que legalmente a ROM nunca tenha sido abolida, a expansão urbanística roubou-lhe boa parte da área e a Universidade do Porto deixou de a usar para trabalhos de campo. Houve extracção de areia nas dunas, secaram muitos dos charcos, a ribeira de Silvares foi poluída, depositaram-se entulhos, chegaram veraneantes, corridas de automóveis e veículos todo-o-terreno, a vegetação infestante de chorões, acácias e canas instalou-se e expandiu-se. Mas o ambíguo estatuto de protecção conseguiu evitar o mais sério dos atentados: o coração da antiga reserva, entre as dunas primárias e os hectares de pinhal, foi poupado às construções. Em toda a linha de costa entre Ovar e a foz do Cávado não sobrou outro pedaço de natureza com uma riqueza ecológica comparável.

Foi para proteger tal riqueza que, em Outubro de 2009, por decisão unânime da Assembleia Metropolitana do Porto, foi oficialmente criada a Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde, que se estende por 380 hectares entre a foz do rio Onda, em Labruge, e a foz do rio Ave, na sede do concelho. O quinhão maior da nova área protegida, com cerca de 266 hectares, é o que resta dos 554 hectares da antiga ROM.

E que foi feito nos quatro anos decorridos desde essa feliz data? Burocraticamente, nada: não há órgãos de gestão, não há plano de ordenamento, não há sequer placas de informação para visitantes. E no terreno também nada se nota, como se a remoção do lixo, o controlo da vegetação infestante e o impedimento da circulação de veículos motorizados dependessem de aturados estudos e da bênção de doutas comissões.

Neste compasso de espera a vida vai seguindo o seu curso, e a velha Reserva Ornitológica de Mindelo ainda guarda surpresas para os naturalistas que a percorram de olhos bem abertos. O relatório que serviu de base à criação da Paisagem Protegida, elaborado pelo CIBIO em 2007, enumera 448 espécies ou subespécies de plantas vasculares presentes na área, mas o número real é maior, já que a lista peca por algumas omissões.

No leito ou nas margens dos frágeis charcos temporários, ou mesmo no cordão dunar, sobrevivem plantas que, na região do Porto, são preciosas relíquias de outras épocas. Pela sua singularidade, entendemos destacar seis delas como especialmente merecedoras de protecção: duas línguas-de-cobra, um centauro, uma orquídea, um goivo e uma alface-dos-rios.

Ophioglossum vulgatum L.
Nenhum observador ocasional chamaria feto a esta planta, mas é isso mesmo que ela é. A sua parte aérea, que tem 10 a 20 cm de altura, consiste numa folha mais ou menos carnuda, de ápice arredondado, que forma na base uma bainha de onde sai uma haste preenchida na parte terminal com uns vinte a trinta pares de esporângios. O formato dessa haste – a que os entendidos gostam de chamar fronde fértil – foi a óbvia inspiração para os nomes viperinos (língua-de-cobra-maior, adder’s tongue) pelos quais a planta é conhecida. É um feto que, preferindo solos pouco ácidos, vive em prados húmidos e clareiras de bosques. A altura ideal para o detectarmos é quando põe a língua de fora, entre Abril e Junho.

Ophioglossum vulgatum

Em Portugal é pouco provável que alguém encontre uma destas línguas-de-cobra por acaso. No livro Distribuição de pteridófitos e gimnospérmicas em Portugal, de João do Amaral Franco e Maria da Luz da Rocha Afonso, publicado em 1982, ficamos a saber que o Ophioglossum vulgatum, no nosso país, só é conhecido no litoral entre o Douro e o Ave, e ainda no distrito de Bragança já perto da fronteira. Mas as herborizações mais recentes de que tínhamos notícia, na Boa Nova e na Praia da Memória, datavam de 1893 e de 1907; e as transformações que esse território entretanto sofreu não permitiam grandes optimismos. Quanto a Bragança, Carlos Aguiar, na sua tese de doutoramento sobre a flora e a vegetação do Parque de Montesinho e da Serra da Nogueira, datada de 2000, não refere a existência de qualquer Ophioglossum naqueles lugares. Havia pois fundado receio de que o Ophioglossum vulgatum já não existisse em Portugal.

Em Maio de 2012 descobrimos uma pequena população deste feto (cerca de uma dezena de indivíduos) nas dunas do Mindelo, num local húmido mas denso com silvados, sanganho-mouro e madressilva. Em Junho do mesmo ano, o professor João Lourenço, naturalista de mérito e criador do famoso Arboreto de Barcelos, encontrou uma população muito maior da planta num prado em Macedo de Cavaleiros. O O. vulgatum não está pois extinto em Portugal, mas o seu futuro não está assegurado. Fica o alerta para quem vier a gerir a Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde.

Ophioglossum lusitanicum L.
A última colheita da língua-de-cobra-menor para o herbário da FCUP (Faculdade de Ciências da Universidade do Porto) data de 1912 e foi feita no lugar da Boa Nova (Leça da Palmeira). Na Reserva Ornitológica do Mindelo, descobrimos duas populações de 20 a 30 indivíduos cada, ambas ameaçadas pelo avanço dos chorões. Apesar de ser uma planta com ampla distribuição europeia, é escassa no norte de Portugal, embora seja pontualmente abundante nas rochas de Montedor, no litoral de Viana do Castelo.

Ophioglossum lusitanicum

Morfologicamente, a língua-de-cobra-menor é a versão miniatural da (que outra coisa haveria de ser?) língua-de-cobra-maior. O tamanho exíguo da planta é aliás uma das peculiaridades que dificultam a sua detecção: as folhas, que são carnudas e surgem sozinhas ou em grupos de duas ou três, têm o pecíolo quase todo subterrâneo e ficam-se pelos 2 a 4 cm de comprimento; a haste com os esporângios (por vezes ausente) pode duplicar a altura da planta, mas raramente ultrapassa os 6 cm. Só podemos ter esperança de a ver quando a vegetação circundante é muito rala. Para dificultar ainda mais a observação, o aparecimento da planta à superfície é efémero e decorre numa época (de Outubro a Março) em que a maioria de nós está recolhida na toca.

No habitat desta língua-de-cobra domina o solo arenoso e magro, dotado de alguma humidade e coberto por musgos. A planta evita locais muito expostos ao vento ou ao sol e, nas dunas, agradece a protecção que algum pinheiro ou sargaço lhe possa proporcionar.

Centaurium chloodes (Brot.) Samp.
O centauro, criatura mitológica metade homem metade cavalo, deu o nome a um género de plantas herbáceas de vistosas flores cor-de-rosa, amarelas ou brancas, de que o fel-da-terra (Centaurium erythraea) é, em Portugal, o exemplo mais comum. No outro extremo da escala, tanto em tamanho como em abundância, está o Centaurium chloodes, a que podemos chamar centauro-menor-das-areias.

Centaurium chloodes

A razão da sua minguada envergadura está na fraca dieta, pois resigna-se ao que as areias em dunas ou depressões húmidas do litoral lhe fornecem, o que é quase nada temperado com sal e muito vento. Foi difícil encontrá-lo no Mindelo por ser tão diminuto (as folhas basais medem cerca de 5 mm) e de floração tão irregular: numa semana, amareleceu o coxim de cor verde-relva formado pelas folhas sésseis, oblongas, carnudas e brilhantes, e desapareceram as flores róseas que, apesar de medirem apenas um centímetro de diâmetro, nos permitiram detectar a planta. Uma vida apressada esta (como a da maioria das espécies do seu género), mas que basta para disseminar as sementes e garante o disfarce atempado no areal, antes que por ali circulem os veraneantes ou o tempo ameno se esgote.

É um endemismo do sudoeste europeu, que é como quem diz das dunas e falésias da costa atlântica francesa (onde está praticamente extinta e é agora espécie protegida) e do litoral norte e noroeste da Península Ibérica. Todos os registos alertam para uma distribuição restrita e para populações escassas e em declínio acelerado; por isso consta da lista de plantas vasculares com maior valor para a conservação, e tem garantida a sua inclusão no Livro Vermelho da Flora da Galiza e do Norte de Portugal, obra a publicar em breve. Por cá, ocorre (ou ocorria) da Beira Litoral ao Minho, mas a sua presença é pontual, palavra exacta para descrever, por exemplo, os cerca de 30 metros quadrados, divididos por dois núcleos com algumas dezenas de exemplares cada, onde, na ROM, a detectámos.

Esta planta foi primeiro descrita por Félix de Avelar Brotero (Flora Lusitanica 1: 276, 1804), que lhe chamou Gentiana chloodes. A sua inclusão no género Centaurium deve-se a Gonçalo Sampaio (Herb. Port.: 106, 1913). Por esta ligação a gente e terra lusas, ela é referida em alguma bibliografia como centauro-menor-português.

Spiranthes aestivalis (Poir.) Rich.
Muita gente julga que as orquídeas são um exclusivo dos países tropicais, e que em Portugal elas só podem ser admiradas em cultivo. Mas não. Temos cerca de 70 espécies de orquídeas silvestres distribuídas pelo território nacional, incluindo continente, Açores e Madeira. Na ROM ocorrem pelo menos três espécies: Serapias parviflora, Serapias lingua e Spiranthes aestivalis; a esta última podemos chamar tranças-de-Verão. São plantas discretas, que passam grande parte da sua vida reduzidas a tubérculos subterrâneos, produzindo espigas florais durante um mês ou dois em cada ano. Dependem, para a sua germinação e sobrevivência, de relações simbióticas que estabelecem com certos fungos (micorrizas), e por isso a colheita é-lhes fatal e são geralmente impossíveis de cultivar.

Spiranthes aestivalis

Como produzem sementes minúsculas, facilmente transportadas pelo vento, as orquídeas europeias gozam amiúde de uma distribuição muito ampla. É o caso da S. aestivalis, que vive em sítios húmidos ou temporariamente encharcados de grande parte da Europa e do norte de África, e que na nossa latitude floresce entre Junho e Julho. Com o recuo do seu habitat de eleição ou por efeito do coleccionismo botânico desenfreado, as populações da espécie têm vindo a diminuir a um ritmo alarmante. Desde 1959 que ela está extinta na Grã-Bretanha. Em Portugal a situação é melhor, pois persistem algumas dezenas de núcleos no centro e sul do país. No entanto, a população da ROM – que em anos favoráveis exibe cerca de uma centena de espigas floridas, mas está ameaçada pelo pisoteio e pela prática de hipismo – é talvez a última em todo o litoral norte.

Matthiola sinuata (L.) R. Br.
O goivo-das-dunas, ou giroflée-des-dunes segundo os franceses, com a sua textura lanuda e as suas flores de um matiz lilás invulgar, perfumadas só à noite, é talvez a planta mais vistosa de todas as que escolheram morar nas dunas do Mindelo. As folhas de margens onduladas, que surgem como roseta no primeiro ano do ciclo de vida da planta, são obra de capricho que o veludo de uma lã espessa protege do efeito abrasivo da areia enquanto capta o vapor de água circundante. As flores não têm estilete, unindo-se as quatro pétalas num tubo longo adequado à polinização por borboletas. Os frutos, que parecem vagens penugentas, são cilíndricos, compridos (até 12 cm) e podem persistir por longo tempo na planta já seca.

Matthiola sinuata

A Matthiola sinuata vive na costa atlântica europeia, desde a Grã-Bretanha e França até à Península Ibérica, e em quase toda a bacia mediterrânica, mas é globalmente escassa e em Portugal está ameaçada. A população da ROM, relativamente numerosa, parece ser a única do litoral norte, e ocupa a crista da duna primária numa extensão de algumas centenas de metros.

Samolus valerandii L.
É no Verão, quando lança hastes floridas que podem chegar aos 50 cm de altura, que a alface-dos-rios, herbácea vivaz que mora em estuários, taludes húmidos, juncais, margens de linhas de água e outros locais temporariamente encharcados perto do litoral, se torna mais fácil de observar. As flores, de cinco pétalas brancas dispostas em cálice, agrupam-se em racimos no topo dos talos e não medem mais de 3 mm de diâmetro; as folhas, um pouco ásperas e com a nervura média vincada, formam rosetas basais e alternam no caule erecto.

 

Samolus valerandii

É uma planta de distribuição quase cosmopolita, habitante de quatro continentes: Europa, Ásia, norte de África, América. Em Portugal, onde está presente de norte a sul do território continental e também na Madeira e nos Açores, não será planta rara, mas é pouco vista. O seu escasso contingente na ROM está ameaçado pelo pisoteio, pela prática de hipismo e pela circulação clandestina de veículos motorizados ou puxados a cavalo. Partilha com a orquídea Spiranthes aestivalis depressões pouco permeáveis no areal onde se acumula água da chuva e que estão protegidas pela duna primária. Segundo a Flora Ibérica, que cita o botânico espanhol Pius Font i Quer (1888-1964), outrora comia-se em saladas e tem propriedades antiescorbúticas.

Maria Pires de Carvalho e Paulo Ventura Araújo*

 

* Dois dos três autores dos livros editados pela Campo Aberto
em primeira edição, À sombra de árvores com história (2004; 2008, segunda edição, Gradiva)
e Um Porto de Árvores (2006; segunda edição Campo Aberto, 2013)

 

AS PLANTAS QUE NOS PROTEGEM – BARREIRA NATURAL CONTRA O AVANÇO DO MAR

As dunas litorais são acumulações de areias que se estabelecem na área adjacente à zona de marés, constituindo a transição entre a terra e o mar. Os Habitats dunares são sistemas arenosos muito dinâmicos expostos à ação direta dos agentes modeladores, nomeadamente: ondas, marés, vento, temperatura e precipitação. Constituindo uma barreira natural, as dunas protegem a terra da intensidade do vento, do avanço das areias e do próprio mar. A estabilização das areias para a formação das dunas é conseguida devido à instalação de vegetação natural. Capaz de se adaptar a esse meio hostil, a flora dunar desenvolveu adaptações morfológicas, anatómicas e fenológicas, que lhe permitem resistir às condições agrestes da orla costeira, como a resistência ao vento, salinidade, grandes amplitudes térmicas durante o ano, luminosidade excessiva, mobilidade das areias e escassez de nutrientes e água no solo.

As adaptações morfológicas e/ou anatómicas destas plantas das dunas estão relacionadas especialmente com a redução da transpiração. Nestes habitats, encontramos plantas com folhas reduzidas e cutinizadas, sistema radicular longo (em algumas espécies) ou em disposição prostrada (deitada) e em roseta. Vulgarmente a vegetação dunar apresenta pelos epidérmicos, que permitem a retenção do orvalho e refração dos raios UV, diminuição da área foliar e aumento da suculência das folhas e caules, favorecendo a conservação de água.

Os diversos condicionalismos e barreiras que as plantas enfrentam na sua instalação, determinam a faixa do sistema dunar.

Pré-duna ou areias da praia


A pré-duna ou areias da praia correspondem à faixa de areias praticamente nuas que se encontra junto ao mar, onde aparecem as primeiras plantas do sistema dunar. Esta zona é colonizada particularmente pela eruca-marinha (Cakile maritima), polígono-marítimo (Polygonum maritimum) e o feno-das-areias (Elymus farctus subsp. boreali-atlanticus), espécies tolerantes à submersão e salinidade das águas.

Duna primária ou duna embrionária


Na transição entre as areias da praia e as dunas móveis, situa-se a duna primária (ou duna embrionária) onde se instalam as plantas pioneiras na fixação dunar que são capazes de suportar imersões temporárias pela água do mar. Neste declive frontal das dunas virado ao mar ainda é visível o feno-das-areias (Elymus farctus subsp. boreali-atlanticus), juntamente com a morganheira-da-praia (Euphorbia paralias), o cardo-marítimo (Eryngium maritimum) e os cordeirinhos-da-praia (Otanthus maritimus).

Duna móvel (cristas dunares)


As dunas vão crescendo até às cristas dunares, que correspondem à duna móvel, formações resultantes da acumulação sucessiva das areias transportadas pelo vento, as quais são fixadas fundamentalmente pelo estorno (Ammophila arenaria).

Esta planta possui grande capacidade de regeneração e crescimento, formando colmos (‘caules’) flexíveis onde as areias transportadas pelo vento ficam retidas. Aliado a este fator, a Ammophila arenaria possui também um sistema radicular de rizomas que se cruzam facilitando o crescimento até à superfície, caso haja soterramento. O estorno é acompanhado por outras espécies pioneiras na fixação das areias, que colonizam a vertente até ao topo da duna, às quais se junta a couve-marinha (Calystegia soldanella) e algumas leguminosas como a luzerna-da-praia (Medicago marina) e o trevo-de-creta (Lotus creticus).

Zona interdunar


Às cristas dunares segue-se uma zona deprimida e aplanada, zona interdunar, abrigada da ação dos ventos e do mar, que oferece boas condições para o crescimento e desenvolvimento de diversas plantas.Esta zona, já definitivamente fixada, é a que apresenta maior diversidade e abundância de espécies vegetais.

Ao lado de algumas das espécies já referidas, encontramos vulgarmente, a madorneira (Artemisia campestris subsp. maritima), a perpétua-das-areias (Helichrysum italicum subsp. picardii), o narciso-das-areias (Pancratium maritimum), o pinheirinho-das-areias (Sedum sediforme), o morrião-das-areias (Anagallis monelli), a erva-pinchoneira (Corynephorus canescens), a junça-das-areias (Cyperus capitatus) e a salsa-das-areias (Seseli tortuosum).

Duna secundária ou duna fixa


A zona interdunar é limitada para o interior por uma nova elevação mais ou menos paralela à duna primária, que integra a duna secundária, a qual pode compreender várias depressões e elevações, condicionadas pelo regime dos ventos, a topologia do terreno e a presença de obstáculos naturais ou construídos. Nesta zona aparecem já arbustos de maior porte, ou mesmo árvores de porte alterado pela exposição aos ventos marítimos, tal como o pinheiro-bravo (Pinus pinaster), que foi introduzido no final do século XIX com o intuito de fixar as areias, o pinheiro-manso (Pinus pinea), o samouco (Myrica faya) e a sabina-das-areias (Juniperus phoenicea).

Das plantas arbustivas ou subarbustivas são caraterísticas a camarinha (Corema album), bocas-de-lobo (Antirrhinum majus subsp. cirrhigerum), flor-de-ouro (Bellardia trixago), o goivinho-da-praia (Malcolmia littorea) e por vezes as assembleias-das-areias (Iberis procumbens), espécie endémica da Península Ibérica.

Lotus creticus

Ameaças à conservação do sistema dunar
É cada vez mais importante e urgente que o homem tome consciência de que as dunas litorais não existem unicamente para o seu deleite e prazer. Infelizmente a pressão exercida não se limita a umas horas estendidos ao sol, mas a toda uma série de ações, mais ou menos nefastas ao ecossistema dunar. Grande parte do nosso litoral foi destruído nos últimos anos, essencialmente por implantação imobiliária desordenada e até ilegal.

Por outro lado, ao longo da nossa costa, a fixação das dunas através de espécies introduzidas têm vindo a ocupar áreas cada vez maiores, devido ao carácter invasor de algumas dessas espécies e essencialmente ao seu uso descontrolado. São exemplo o chorão-das-areias (Carpobrotus edulis), a erva-das-pampas (Cortaderia selloana) e várias espécies do género Acacia, em particular a acácia-de-espigas (Acacia longifolia). A proliferação desta última espécie junto à costa está a tomar, em alguns locais, proporções incontroláveis, descaraterizando o sistema dunar e pondo em risco as espécies autóctones, que vão perdendo continuamente o seu habitat.

É urgente sensibilizar as populações para o problema da erosão costeira (eólica e hídrica). Os riscos geológicos que atualmente caraterizam a faixa litoral são uma consequência do somatório de todos os fatores de destruição das dunas, especialmente da destruição da vegetação dunar. Contribuindo diretamente para a fixação das areias e estabilidade dos sistemas dunares, as plantas que se instalam nestes habitats oferecem naturalmente a melhor barreira de defesa contra o avanço do mar!

Lísia Lopes

Bellardia trixago

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