VEG

     

    No âmbito do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, a Direção-Geral de Saúde publicou em Julho de 2015 uma brochura e documento digital intitulado LINHAS DE ORIENTAÇÃO PARA UMA ALIMENTAÇÃO VEGETARIANA SAUDÁVEL.

    Trata-se de um manual que contém todas as informações necessárias para que qualquer cidadão ou profissional de saúde aprofunde o estudo deste regime alimentar no sentido de poder aconselhar e/ou seguir de forma fundamentada este regime.

    Para atingir este objetivo, são apresentados os argumentos filosóficos, religiosos, sociais, utópicos e relacionados com a saúde humana que estão na génese deste regime, assim como os seus defensores. São esclarecidas as diferenças entre os vários tipos de dieta relacionadas com o vegetarianismo e são apresentadas informações nutricionais para a definição de uma dieta vegetariana equilibrada.

    Para descarregar e/ou consultar o manual clique aqui .

    Mais adiante, um texto de opinião suscitado por esta brochura e um comentário que a ele foi feito já.

     

    Sem Título

    COMENTANDO QUESTÕES ALIMENTARES NA PERSPETIVA AMBIENTAL

    A título pessoal (e não na qualidade de membro da direção da Campo Aberto), apresento adiante o que se poderia designar por um texto ou artigo de opinião a propósito deste documento. Convidam-se os leitores a enviarem os seus próprios comentários e textos de opinião sobre este assunto (ou, na verdade, sobre qualquer outro assunto do âmbito dos temas de ambiente, natureza, alimentação, saúde e alternativas que são os deste e-sítio), para:

    contacto@campoaberto.pt

    Mais adiante, aliás, reproduz-se já o comentário de Lurdes Fidaldo, em torno deste meu texto na versão que circulou em email, antes de ser aqui colocada. José Carlos Marques

    UM DOCUMENTO NOTÁVEL A VÁRIOS TÍTULOS

    Alimentos mediterrâneos in Les 4 saisons du jardin bio, n.º 213, www.terrevivante.org

    Alimentos mediterrâneos in Les 4 saisons du jardin bio, n.º 213, www.terrevivante.org

    O documento da Direção-Geral de Saúde que acima se convida a ler é um documento notável a vários títulos!

    * Por, no âmbito oficial do Ministério da Saúde, e com um tom discreto e seguro, sem qualquer viés, mesmo pró-vegetariano, acabar definitivamente com o mito, ainda vigente em muitos setores sociais e da medicina, segundo o qual a dieta ou regime alimentar vegetariano (regime alimentar é o que significa a palavra dieta, que nada tem a ver com as famosas dietas que exploram a credulidade do público que quer manter a linha mas confia em conselhos errados e por vezes perigosos), seria perigoso para a saúde ou anti-científico.

    * Por incluir fatores ambientais e de sustentabilidade na análise histórica do aumento do número de vegetarianos no mundo e em Portugal (onde, no entanto, seriam apenas 30 mil)

    * Por recomendar aos vegetarianos o cuidado a ter com um regime globalmente considerado muito positivo e compatível com praticamente todas as exigências nutricionais na idade adulta, o que é importante na medida em que o número de vegetarianos tem aumentado muito mas mais em conexão com a defesa dos direitos dos animais e com a recusa de produtos animais na alimentação e fora dela, sendo que, por vezes, muitos ou alguns dos que têm essa motivação praticam regimes desequilibrados que apenas são veganos pela ausência de produtos animais mas não são equilibrados como um regime, mesmo vegano, pode ser

    * Por se dirigir aos profissionais de saúde, incluindo médicos, alguns dos quais, na experiência de muitos pacientes, ignoram totalmente ou quase totalmente nas suas consultas a abordagem nutricional quer no diagnóstico quer na terapia; é claro que outros regimes alimentares não vegetarianos podem ser compatíveis grosso modo com uma alimentação saudável; mas, se há um problema alimentar em Portugal, não está sobretudo nos 30 mil vegetarianos (talvez mais, se incluirmos flexitários como eu, por exemplo, que comem peixe com alguma frequência, e carne muito mais raramente ou quase nunca) do que nos restantes 10 milhões de portugueses, onde predominam, em larga escala, regimes alimentares desastrosos; de onde vem ou de onde se agrava obesidade, barrigas proeminentes, excesso de sal, cardiovasculares, cancro, etc. Umas vezes por ignorância, outras vezes por supostas razões gastronómicas, outras vezes por noções culturais erradas, outras ainda por falta de meios financeiros (os pobres fazem normalmente escolhas alimentares más porque os alimentos mais baratos são muitas vezes os menos recomendáveis nutricionalmente… e quem os pode censurar por isso?)

    Alimentos mediterrâneos in Les 4 saisons du jardin bio, n.º 213, www.terrevivante.org

    Alimentos mediterrâneos in Les 4 saisons du jardin bio, n.º 213, www.terrevivante.org

    Embora o tema não esteja ausente desta brochura da Direção Geral de Saúde (é aflorado o caso da macrobiótica sem os preconceitos muitas vezes associados, e também o caso da dieta dita mediterrânea), faltaria talvez responder a esta pergunta: como é que a humanidade conseguiu sobreviver até hoje, construir as pirâmides do Egito e as muralhas da China, e tantos outros feitos notáveis, sem que dispusesse então dos conhecimentos nutricionais de índole científica que estão incluídos nesta brochura?

    Claude Aubert, agrónomo francês pioneiro da agricultura biológica em França e inspirados do Centro Terre Vivante

    Claude Aubert, agrónomo francês pioneiro da agricultura biológica em França e inspirados do Centro Terre Vivante

    Sem os querer menosprezar (têm a sua utilidade se não forem interpretados de uma maneira rígida e cega), poderíamos lembrar-nos de Claude Aubert, um dos esteios e pioneiro da agricultura biológica em França, que dedicou grande atenção ao tema dos regimes alimentares tradicionais em grandes e menos grandes civilizações, concluindo que o conhecimento empírico tinha levado às opções certas: um regime praticamente sempre baseado na associação de um cereal ou pseudocereal e de uma leguminosa; completado por variedade de legumes, verduras e frutas; sendo a maior parte destes alimentos não processados ou processados de forma artesanal; com a presença de um elemento fermentado (soja e derivados, queijo e laticínios, picles, e outros) que enriquece a flora intestinal e preenche supostas ou reais carências que há 50 anos eram ainda o terror dos médicos e da ciência nutricional perante a fome, a subalimentação e a má alimentação. Não que tais fenómenos não existissem e ainda existam, mas interpretados muitas vezes de forma errada ou parcial.

    Em países como a China e a Índia, hoje o grande drama alimentar é, nas camadas que supostamente escaparam à miséria, a adoção dos piores padrões alimentares do Ocidente, com a subida exponencial da obesidade e todo o cortejo de doenças associadas. Tal como no Ocidente, os barrigudos proliferam, quer devido ao tipo de alimentos sólidos ingeridos quer à adoção de «bebidas» quer do tipo dos refrigerantes e colas quer do das bebidas alcoólicas. Uma tradição antiga substituída por má «ciência» moderna tem resultados desses.

    Centro Terre Vivante, imagem de Jean-Jacques RAYNAL para a revista Les 4 saisons du jardin bio editada por esse Centro

    Centro Terre Vivante, imagem de
    Jean-Jacques RAYNAL para a revista Les 4 saisons du jardin bio editada por esse Centro

    Um aspeto paradoxal e triste dessa realidade: a civilizadíssima Noruega tem agora uma camada de população xenófoba que, vendo o fenómeno da obesidade nos imigrantes que lá chegam, pretenderia resolver o problema que isso implica (custos para o sistema de saúde) recorrendo à maneira musculada; não à persuasão ou esclarecimento, mas à força. Quando na verdade a obesidade tem em grande parte, por razões já referidas, raiz na pobreza. E também na perda das referências culturais tradicionais, incluindo o regime alimentar e a gastronomia popular. José Carlos Marques

    Lurdes Fidalgo, relembrando tempos antigos da Terra Quente transmontana (embora como eram vividos por pessoas de alguns haveres) comenta:

    Parabéns pelo seu texto. Adorei lê-lo aqui na aldeia onde me encontro neste verão de canícula como há anos não ocorria. Eram assim os verões das minhas férias grandes!

    Tenho pensado muito no tipo de alimentação das pessoas que aqui viveram, alimentação essa que começou a sofrer mudanças por volta dos anos 1960 e atingiu seu apogeu a caminho do desastre nesta nossa época. Há algum tempo optei por seguir de perto o regime antigo praticado em casa. As boas sopas de feijão, de couve penca, as abundantes saladas de alface e tomate e o consumo de queijo regional. Lembro com saudade o tempo em que minha Mãe fazia os nosso queijos de consumo anual. O tempo em que, sem frigoríficos ainda, bebíamos tigelas de coalhada e de soro tão frescos!

    Os erros alimentares devem-se a um novo-riquismo sem precedentes!!! Uma pena. A nossa alimentação tradicional baseada no pão cozido por mãos sábias da mãe e semeado o trigo pelo pai nunca mais será restaurada. Mas quando penso numa torrada de pão desse trigo untada com azeite e polvilhada de açúcar amarelo, o que havia na altura, por mais barato, e outros mimos (tortadas de ovos maravilhosas, por exemplo),  todos preparados pelas mães e avós, fazem-me supor que as nossas refeições eram de príncipes, se comparadas com o lixo empacotado consumido atualmente…

    Deixe-me voltar às famosas tortadas de ovos da bisavó, que eram dos ovos das galinhas, acabados de pôr, batidos com muita salsa estupenda que rescendia, e a que se acrescentava cebolinha picada miudinha e miolo de trigo esfarelado. Fritavam-se ao lume numa sertã de cabo e pés altos, pequena, à medida da tortada. Ainda hoje as faço e embora não tenham o sabor antigo, são muito saborosas.

    Nas festas, cabrito estufado ou borrego, nos domingos, marrã frita em azeite, ainda não havia óleo. Perdeu-se todo este manancial de coisas boas principescas. Penso que o Minho tem uma tradição diferente da transmontana, muito influenciada esta pela cultura judaica e por Espanha aqui tão perto. Lurdes Fidalgo

     

     

     

     

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