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COMUNICAÇÕES APRESENTADAS

Cerca de seis meses depois da realização da Jornada sobre a Laudato Si’, e a poucos dias do segundo aniversário da publicação desse documento notável sobre o estado do mundo, da humanidade e da natureza, iniciamos a publicação neste e-sítio de sinopses ou resumos das comunicações apresentadas naquela jornada a que formos tendo acesso.

Deveríamos começar pela sinopse da comunicação de D. Manuel Martins, Bispo Emérito de Setúbal, mas por motivos de saúde não foi, e talvez não venha a ser, possível obtê-la. Aguardamos no entanto que os nossos parceiros na organização desta jornada, o diretor e um colaborador do jornal Voz Portucalense (Manuel Correia Fernandes e Joaquim Armindo, respetivamente), nos façam chegar logo que possível sinopses de comunicações da parte da manhã na jornada, ou outras proferidas por elementos convidados por eles.

Ficamos para já com a sinopse da segunda comunicação feita na manhã de 22 de outubro, de autoria de Jorge Leandro Rosa, membro da direção da Campo Aberto, investigador no Instituto de Filosofia da Faculdade de Letras do Porto e docente na Escola Superior de Educação do Porto. No título, poderia agora escrever-se antes: A carta que continua a ser inesperada dois anos depois…

 

A carta que continua a ser inesperada um ano depois
Jorge Leandro Rosa

 «Ao que se deve a atual mudança climática? Devemos questionar-nos sobre as nossas responsabilidades individuais e coletivas sem recorrer a fáceis sofismas que se escondem por detrás de dados estatísticos ou de previsões discordantes. Não se trata de abandonar o dado científico do qual precisamos como nunca, mas de ir além da simples leitura do fenómeno ou de contabilizar os seus múltiplos efeitos.»

Carta de Francisco ao director da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, 14 de Outubro de 2016

Um apelo
Tendo o privilégio de estar na presença do Bispo D. Manuel Martins, quero fazer um apelo que, abarcando embora as igrejas cristãs e as confissões religiosas sem excepção, é particularmente dirigido à igreja cujo responsável mais proeminente nos deu este documento excepcional. Faço-o interpelando a Igreja Católica e tomando como mensageiro deste meu apelo a figura ética que é D. Manuel, alguém que colocou sempre a comunidade dos crentes diante dos escândalos sociais e éticos do nosso tempo. Peço à Igreja que, inspirada pela Laudato Si, coloque a catástrofe ambiental em que vivemos, em que vivem todos os povos, no mesmo plano moral, social e pastoral em que coloca as questões da vida e da reprodução humana. Porque, também aqui, é a vida como dádiva que está em causa, no mais profundo do seu mistério e da sua sacralidade.

Um ano depois, a carta que Francisco nos enviou a todos continua a merecer as nossas respostas, que estão ainda longe de serem as suficientes e as necessárias. Uma dessas respostas – talvez a mais «natural» mas também a mais inesperada, de certa forma a mais penosa – deveria vir da própria igreja: o cristianismo atravessou vinte séculos do nosso destino civilizacional, esteve sempre presente nos séculos em que o ser humano estabeleceu um autêntico estado de guerra com a natureza. Finalmente, os cristãos começam a perceber que essa condição não é evangélica! Esta evidência, que S. Francisco de Assis já enunciava tão claramente, é hoje mais urgente do que nunca e interpela com a urgência que S. Paulo punha nas palavras que dirigia às primeiras comunidades cristãs. Tal como Paulo, também nós estamos diante de um Império que é surdo às nossas palavras e ao nosso cuidado. Também este império, mesmo se moderno e tecnológico, traz consigo a morte e a soberba, mas agora numa escala ainda mais cesarista e ignorante do mundo.

O que aconteceu ao nosso mundo
Estive, há quase vinte anos, numa reunião internacional das igrejas sobre os riscos ambientais no Mundo Mediterrâneo. Decorreu no Parque Natural dos Montes Aurunci. As discussões foram agradáveis e civilizadas. Visitámos, um belo dia, as Termas privadas do Imperador Augusto, mesmo em face do Mare Nostrum, uma visão gloriosa que nunca esquecerei. Compreendi, então, uma dimensão mais profunda da ecologia quando visitámos as Termas, vasta área de piscinas que se sucediam umas às outras sob um céu esplendoroso, todas destinadas a uma temperatura específica da água graças a um sistema subterrâneo de túneis onde inúmeros servidores mantinham as caldeiras activas.

Mais do que nas discussões do encontro, descobri naqueles túneis – cuja vastidão é absolutamente surpreendente para o visitante incauto que desconheça caminhar sobre galerias com dez metros de pé direito e os túneis secundários que daí se ramificam – o que é esta necessidade térmica da civilização e qual é o seu consumo obrigatório de recursos. Numa das mais belas paisagens da Terra, esta recriação das condições de vida – já tecnológica, já baseada na exploração intensiva do trabalho-energia – pareceria absolutamente desnecessária. Mas tal irrazoabilidade era própria do poder humano e a prova parecia estar ali: mesmo vivendo no paraíso terrestre, aparentemente procuraremos sempre recriar um outro paraíso; aparentemente, não nos basta a generosidade de um planeta que, tudo indica, se encontra numa situação raríssima na galáxia. Maior parece ser o apelo do privilégio social que esconde a sua necessidade térmica.

Vinte anos depois, estou de novo num debate das igrejas sobre o ambiente. Muitas coisas mudaram. Por um lado, o bispo de Roma publicou este documento inesperado e magnífico. Mas a situação ambiental global não deixou de ser o termómetro exacto desta civilização que já não é apenas termal, mas antes termo-industrial a uma escala global.

Há duzentos anos decidimos que era possível rentabilizar os processos termodinâmicos em todo o mundo ocidental. Grosso modo, calor significa «energia» em trânsito, e dinâmica se relaciona com «movimento». Por isso, em essência, a termodinâmica estuda o movimento da energia e como a energia cria movimento. Historicamente, a termodinâmica desenvolveu-se pela necessidade de aumentar-se a eficiência das primeiras máquinas a vapor. É possível (mas improvável) que quem pega hoje no seu carro tenha ainda alguma ideia da relação entre esse gesto e o lançamento da máquina térmica dos combustíveis fósseis no séc. XIX. Mas há raízes ainda mais profundas, situadas no dealbar da nossa orgulhosa civilização latina: as piscinas de Augusto recordaram-mo vivamente naquele dia.

Mas o calor oriundo da energia interna de um sistema não pode ser totalmente convertido em trabalho, razão por que jamais é completamente convertido em energia cinética mas antes se dispersa no meio ambiente por diversas formas. Essa é a mecânica, se assim posso dizer, do nosso problema global. Mas não diz tudo. Não diz o que poderá ser uma leitura ética e religiosa, assim como aquela social e política.

Quero aqui ir um pouco mais longe do que as/algumas leituras da Laudato Si’ que se têm concentrado (embora nem todas) na espantosa abrangência de temas aí referidos e denunciados: poluições de diversa ordem, desperdício, mudança climática, escassez da água e outros recursos, destruição das espécies vivas, destruição dos oceanos, subida do nível do mar, desflorestação intensiva. Alguns de nós, que tínhamos observado lacunas no documento, ou hesitações na sua denúncia, como na questão dos OGM, da manipulação genética intensiva que é introduzida na produção de alimentos, vimos agora o Papa Francisco publicar uma carta ao Director da FAO onde se lê esta passagem: «está a crescer o número de quantos pensam que são omnipotentes e que podem descuidar os ciclos das estações ou modificar impropriamente as diversas espécies animais e vegetais, fazendo perder aquela variedade que, se existe na natureza, significa que desempenha — e deve desempenhar — o seu papel». E acrescenta ainda: «Selecionar geneticamente uma qualidade de planta pode dar resultados impressionantes sob o ponto de vista quantitativo, mas foram tidos em conta os terrenos que vão perder a sua capacidade de produzir, os criadores de gado que não vão ter pastagens para os seus animais, e quantos recursos aquíferos se tornarão inutilizáveis? E sobretudo, questionamo-nos se e em que medida contribuímos para alterar o clima?»

Quem é responsável?
Sim, enquanto documento aberto, a Laudato Si cumpre, melhor do que qualquer outro texto existente de valor simbólico, político e cultural, o seu papel. Faço aqui então uma outra pergunta: quem são as personagens da Laudato Si? Quem protagoniza a história que nos é aí contada? É certo que Deus está lá. E os santos, S. Francisco à cabeça. E a Humanidade. São participantes, mas não participantes activos no momento presente. São mais personagens morais, in illo tempore cumpriram um feito (Deus, evidentemente, criou o mundo). Quem serão, então, os protagonistas dos acontecimentos que decorrem, o desenrolar desta história colectiva, que foi bela ou pelo menos promissora e agora parece chegar a um fim abrupto? Poderão ser aqueles que detêm um arbítrio, que fazem suas certas acções ou as libertam para depois as deixarem seguir o seu curso?

Felizmente, o discurso de Francisco já não acredita na transformação da Humanidade em grande sujeito histórico. É por isso que a carta não se dirige a um receptor colectivo, mas a cada um de nós. Mas esse discurso também não cultiva a denúncia do inimigo, embora nomeie certas posições em que os seres humanos agem mal por acto e por omissão. Há, contudo, uma noção clara dos agentes dos acontecimentos que se desenrolam. Há, se se quiser, um agenciamento claro. Aquilo que está em causa na carta é um processo que, embora complexo, é perfeitamente abarcável por aquele que quer ver. Algo que vem à luz. Aparentemente, será difícil dar-lhe um nome singular a esse agente da destruição da criação. Ele não tem traços pertencentes a um ser singular, mas é bem conhecido de todos os que estamos aqui, já que são aqueles que contam com a nossa anuência todos os dias. Esse agente é o nosso consentimento individual e colectivo.

O nosso consentimento tem, contudo, nomes bem precisos, nomes que se escondem nos modos como vamos colocando a nossa conveniência, a nossa gula e o nosso conforto à frente do bom senso em que deveríamos viver, a fim, precisamente, que todos possam viver, agora e no futuro. No terceiro capítulo da Laudato, central do meu ponto de vista, há um nome que se desdobra (é um ser que é caracterizável por esse desdobramento) – aquele que precisamente mais se aproxima desse agente embebido no nosso modo de vida –, a tecnologia, a técnica e a tecno-ciência. Esta consciência, bem inscrita e fundamentada no texto de Francisco, é a grande ousadia da sua carta, é o tema mais arriscado e mais clarividente de um apelo a uma tomada de consciência que seja capaz de romper com um sistema técnico transformado em «bezerro d’ouro». Ela é, afinal, o sinal de que a nossa reflexão em torno das propostas da Laudato Si’ está apenas a começar.

 

Inscrições gratuitas

A ENCÍCLICA LAUDATO SI’, A NATUREZA E O AMBIENTE

NUMA VISÃO ECUMÉNICA


Sábado 22 de outubro de 2016

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Independentemente da orientação religiosa, arreligiosa ou irreligiosa de cada um, a encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, é uma oportunidade de diálogo ecuménico entre diferentes correntes de pensamento e cidadania com vista a uma presença construtiva na vida social e cívica. Daí esta jornada.

Um convite à reflexão e ao debate sobre um documento de grande repercussão mundial que interessa a todos que acompanham a situação presente da humanidade e do país no que respeita à natureza, à qualidade de vida e ao ambiente.

Coorganização
Jornal Voz Portucalense e Campo Aberto – associação de defesa do ambiente.

Prazo de inscrição e procedimento
De preferência até 16 de outubro, mas ainda possível por email depois dessa data o mais tardar até quinta-feira 20 de outubro. A partir daí, se só puder decidir-se mais tarde, inscreva-se por favor no próprio dia e local.

Envie o nome, email e telefone de cada pessoa a inscrever para:

atividadesca@gmail.com,  ou
vp@voz-portucalense.pt

Inscrições por telefone: Campo Aberto: 918527653; ou: Voz Portucalense: 222073610

De preferência, escreva no assunto: Jornada 22 outubro. Para qualquer dúvida, use por favor os mesmos contactos.

Data e hora

Sábado 22 de outubro
. Receção dos participantes às 9:00. Encerramento: 18:00.

Local

Na Associação Católica do Porto, Rua Passos Manuel, 54, bem no centro do Porto.
Veja mapa e outras informações sobre a ACP:
http://codigopostal.ciberforma.pt/dir/0/associacao-catolica-do-porto/

Manhã
A encíclica Laudato Si’, o ambiente e a natureza
 numa visão ecuménica

9:30  Acolhimento dos participantes

10:00  Abertura da Jornada e Informações pelos Coorganizadores
Joaquim Armindo, pela Voz Portucalense, e José Carlos Costa Marques, pela Campo Aberto

De manhã, intervenções iniciais de D. Manuel da Silva Martins, Bispo Emérito de Setúbal (da Igreja Católica),  e Jorge Leandro Rosa, Professor e Investigador.

11:00

Segue-se uma mesa redonda com a participação de intervenientes de diferentes orientações de pensamento ou religiosas, com moderação de Joaquim Armindo (Diácono da Igreja Católica Romana e Doutorando em Ecologia e Saúde Ambiental), que fará igualmente uma comunicação introdutória à mesa redonda.

Nesta participam

D. António Augusto de Azevedo (Bispo Auxiliar da Diocese do Porto),
D. Fernando Soares (Bispo Emérito da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana),
Rev. José Manuel Cerqueira (Pastor da Igreja Metodista Portuguesa),
Professor José Eduardo Reis (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, área dos estudos literários, investigador na Faculdade de Letras do Porto, membro das Comunidades Zen Budistas Caminho Aberto e Wild Flower),

A mesa redonda é seguida de debate aberto, até às 12:30.

Almoço
Intervalo até às 14:45 para almoço livre a cargo dos participantes.

Tarde
A encíclica Laudato Si’ vista por profissionais de ambiente e de ciência e por cidadãos intervenientes no movimento ecoambiental


Recomeço às 14:50

Intervenções iniciais:
António Marujo, jornalista (abordará a receção da Laudato Si’ a nível mundial, dentro e fora da Igreja Católica)
Pe Manuel Correia Fernandes, Diretor do Jornal Voz Portucalense

15:45 Mesa Redonda, moderada por José Carlos Costa Marques, presidente da direção da Campo Aberto

Intervenções:

António Verdelho Vieira (Neurocirurgião, ex-vice-presidente da Liga Portuguesa de Profilaxia Social, fundador e presidente do Conselho Geral da Fundação Sanitus, vice-presidente da Campo Aberto),
Rogério Santos (Professor da Universidade Católica Portuguesa)
Margarida Silva (Bióloga, coordenadora da Plataforma Transgénicos Fora),
Acácio Valente (Mestre em Bioética, Gestor de Empresas e colaborador da Quercus em Vila Real),
Álvaro Fonseca (Doutorado em Microbiologia, ex-docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa).

A mesa redonda é seguida de debate aberto, até às 17:45.

Conclusões e Encerramento: 18:00.

 

Francisco Assis-3

 

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