• Ago : 11 : 2014 - Apelo ao boicote de alimentos com milho transgénico
  • Nov : 23 : 2011 - Petição pela salvaguarda das Sete Fontes
  • Jul : 6 : 2011 - Perigo para Paisagem Protegida Valongo
  • Jun : 17 : 2010 - Corte de Árvores na Circunvalação – resposta da C.M. Porto
  • Jun : 15 : 2010 - Corte de Árvores na Circunvalação

Veja aqui informações sobre a tertúlia: DOS PAVILHÕES DO BOLHÃO AO MODELO DE MERCADO E À VISÃO DE CIDADE.

Mais abaixo uma nota sobre o número 58 de LA REVUE DURABLE (a revista sustentável, duradoura…), talvez a melhor revista generalista sobre sustentabilidade e o seu dossiê sobre MOBILIDADE.

E ainda informação sobre um livro que versa a ARQUITETURA TRADICIONAL das quintas da Terra Fria Transmontana, de autoria da arquiteta Joana Gonçalves. Logo a seguir (mas colocado na rubrica anteriormente aos restantes textos), a apresentação do conceito de CIDADE REGENERADORA pelo urbanista e ecólogo inglês Herbert Girardet.

Colocado em  janeiro de 2017, 27
A seguir refere-se a tertúlia de 25 de janeiro de 2017 sobre uma petição que defende a preservação, reconstituição e manutenção dos pavilhões térreos do Mercado do Bolhão, que embora se encontrem muito degradados, representam um património valioso de cuja destruição a cidade se arrependerá como se arrependeu da destruição do velho Palácio de Cristal (sem que com isso pretendamos pôr as duas coisas ao mesmo nível).

Na tertúlia compareceram cerca de 35 pessoas, que se mostraram profundamente interessadas no tema. Foi também aflorada a importância que o Bolhão continua a ter em termos de mercados de frescos, tendo vários dos presentes manifestado a opinião de que a manutenção dos pequenos pavilhões seria mais favorável à manutenção dessa atividade e daria menos azo a eventuais deturpações futuras dessa função tradicional e histórica. A propósito, veja neste e-sítio (rubrica «Movimento Pegada Alimentar») alguma informação sobre o papel revitalizador que os mercados municipais, com relevo para o Bolhão, podem ter na revitalização da agricultura de proximidade e na melhoria da qualidade dos alimentos e portanto da saúde dos consumidores.

Colocado em  janeiro de 2017, 19:

71b28301-4be5-490c-a8a6-83e8e8dd95b4

No seguimento da petição promovida pelos arquitetos Alexandre Gamelas e Catarina Santos juntamente com a INTBAU Portugal, a Campo Aberto – associação de defesa do ambiente, em coorganização com a ACER – Associação Cultural e de Estudos Regionais, promove quarta-feira, 25 de janeiro, às 18:15, uma tertúlia (integrada num ciclo intitulado Observatório do Urbanismo, tal e qual como esta rubrica) a que convidamos todos os interessados. Local: Rua de Santa Catarina, 730-2.º andar, no Porto.

A entrada é livre e gratuita mas sujeita a inscrição prévia. Basta enviar o nome, email e telefone de contacto de cada pessoa que se pretenda inscrever (individualmente ou várias num só email) para tertuliasca@gmail.com até ao dia 24 de janeiro.

As associações coorganizadoras não têm posição oficial sobre o tema mas consideram que o debate sobre ele pode ser enriquecedor e ajudar a formular perspetivas mais claras sobre o modelo de mercado que se pretende recuperar e sobre a visão de cidade que subjaz às diferentes possíveis opções.

A sessão começará com uma apresentação, na qual se falará sobre os motivos da petição e como se relacionam com a reabilitação recente da baixa do Porto, com base na opinião dos apresentadores sobre a proposta da CMP para o Bolhão. Seguir-se-á o debate com o público.

 

061fcd66-3939-453f-8525-ba54ffd2f540

Pormenores existentes no interior do Mercado, agora condenados à destruição

A petição que motivou esta tertúlia resulta da colaboração entre

– a INTBAU, através dos seus membros em Portugal, uma rede de indivíduos e organizações dedicadas à criação de edifícios e espaços públicos mais humanos e harmoniosos, que respeitem as tradições locais (International Network for Traditional Building, Archirecture & Urbanism). É patrocinada pelo Príncipe de Gales e a casa-mãe encontra-se em Inglaterra.

Old Portuguese Stuff, um projecto dos arquitectos Alexandre Gamelas e Catarina Santos. Os dois mantêm atelier em nome próprio, na Baixa do Porto, a partir do qual desenvolvem e coordenam projetos em Portugal e no estrangeiro. Principalmente residencial, o trabalho da firma é fortemente ancorado na tradição arquitectónica, seja ela clássica ou vernacular: info@agcs-a.com

Embora em meio não urbano, a arquitetura tradicional é também o tema de um livro sobre a região de Bragança.

Tradição em Continuidade

A investigação Tradição em continuidade iniciou-se no âmbito do mestrado integrado em Arquitectura da Escola de Arquitectura da Universidade do Minho e foi distinguida em 2014 com o   Prémio Ibérico de Investigação de Arquitectura Tradicional.

Ao longo deste processo, o interesse que a arquiteta Joana Gonçalves tem pela arquitectura tradicional conduziu-a a escrever o livro Tradição em continuidade: levantamento das quintas da Terra Fria Transmontanapublicado com o apoio da Câmara Municipal de Bragançano sentido de disseminar os resultados e metodologias desta investigação e estimular a transmissão de conhecimento, favorecendo práticas de intervenção mais informadas no património transmontano.

O livro tem apresentação pelo  Professor Doutor Jacinto Rodrigues, Professor Catedrático da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto e uma importante referência no domínio da Ecologia e Desenvolvimento Sustentável, e pelo Professor Doutor Ricardo Mateus, da Escola de Engenharia da Universidade do Minho, orientador científico da investigação.

A apresentação foi marcada para sexta  27 de Janeiro, pelas 18h00, no Centro Cultural Adriano Moreira, em Bragança.

DIREITO À MOBILIDADE? ACELERAR… OU ABRANDAR?

Nesta rubrica, Observatório do Urbanismo, trazemos elementos para repensar o urbanismo que hoje se pratica e propor novos paradigmas para ele. Numa altura em que está em curso de elaboração uma nova geração de PDM nos municípios portugueses, é tempo de retificar conceções ultrapassadas, concebidas para um mundo assente em combustíveis fósseis, e substituí-las por planos de transição para uma cidade descarbonizada.

mobilidade

UM NÚMERO MUITO ESPECIAL: DIREITO À MOBILIDADE?
ACELERAR… OU ABRANDAR?

Por coincidência, chega à biblioteca da Campo Aberto (onde pode ser consultada dentro do horário de abertura ao público ou noutra data ou hora sob marcação mediante: contacto@campoaberto.pt) o número 58 de La Revue Durable inteiramente consagrado à questão da mobilidade e dos transportes (intitulado «Pistas para abrandar») poucos dias antes do quarto debate do Ciclo «O Direito à Cidade» que, a 14 de janeiro, se debruçará sobre o tema «Mobilidade e Transportes».

Esta lagarta é um autocarro-bicicleta de transporte escolar, bem verdinho como se quer numa lagarta da couve que se preza. Uma lição de mobilidade.

Esta lagarta é um autocarro-bicicleta de transporte escolar, bem verdinho como se quer numa lagarta da couve que se preza. Uma lição de mobilidade.

Um dossiê diversificado, sobre o pano de fundo de uma revista que vem cada vez mais debruçando-se sobre os problemas da transição para a era pós-petróleo advogando o desinvestimento nas energias fósseis. Nele se aborda o conceito de proximobilidade, se faz uma análise da situação da mobilidade na Europa e no mundo, se faz a distinção entre ultramobilidade, altermobilidade e proximobilidade, se defende a necessidade de um abrandamento geral da mania da aceleração e da velocidade (em consonância com o movimento cultural Slow Movement, que se manifesta na comida, na vida das cidades, nos transportes e nos estilos de vida em geral). Também se mostra que a grande mobilidade, o frenesim de passar a vida a altas velocidades e enormes distâncias, é insustentável para a sociedade. Nesse contexto, detecta-se nos países mais prósperos da Europa que os jovens se estão a afastar do culto do automóvel e defende-se que é necessário ajudá-los a tornar essa tendência permanente. Isso é bem visível já em Amesterdão, capital mundial da bicicleta, como também na Dinamarca, enquanto na Alemanha se constrói a maior auto-estrada ciclável do mundo. Para substituir o automóvel, ainda que parcialmente, mostra-se uma vastíssima gama de veículos ciciáveis. Em Genebra, muitos funcionários são ajudados a libertarem-se do veículo individual. Noutro artigo, defende-se a mobilidade colaborativa, que deve ter o apoio dos poderes públicos. Mas não é só a bicicleta que conta: é preciso também facilitar a vida de quem anda a pé e incentivar os caminhantes, na cidade e em volta dela. O dossiê termina com um pequeno «guia da mobilidade suave». A não perder.

Eis a apresentação desse dossiê e um resumo das suas intenções:

Dossiê «Pistas para abrandar»

APRESENTAÇÃO

A mobilidade sustentável decide-se em parte nas infraestruturas, na organização da cidade que encurta as distâncias e convida a caminhar, a pedalar e a apanhar o autocarro, o elétrico, o metro ou o comboio e a esquecer o automóvel privado. Mas decide-se também no terreno das representações e dos modos de vida. A boa notícia é que as coisas estão a mudar em ambos esses planos. A velocidade e o automóvel despertam hoje aos jovens menos desejo. E a cidade adapta-se pouco a pouco a uma mobilidade pacificada mesmo que tal se processe menos depressa do que seria necessário.

A maior parte da solução ao caráter insustentável da mobilidade atual passa menos por veículos mais limpos do que pela vontade e os meios de abrandar a velocidade e de diminuir as distâncias a percorrer para ter acesso ao necessário. E no final, como em todos os outros domínios, por uma mudança de paradigma. O excesso de mobilidade, a ultramobilidade – ir depressa e fazer muitas deslocações – não se podem isolar dos outros males que fazem adoecer o mundo: são indissociáveis de um paradigma baseado no crescimento infinito que está definitivamente caduco.

Abrandar é por isso dar um passo ao lado do paradigma instalado. Fazer novas deslocações é contribuir para pôr em causa o poder desse paradigma. Este dossiê de La Revue Durable multiplica as pistas por onde avançar – e mesmo por onde acelerar o passo – em direção a essa mobilidade renovada, revista em baixa, tendo em conta que tal abrandamento vai a par com a transição ecológica global que temos que orquestrar. LRD

 

retrato

Iniciámos a rubrica com um texto de Herbert Girardet, que não é um desconhecido em Portugal. Com efeito foi dele publicado em 2007 em tradução portuguesa o livrinho Criar Cidades Sustentáveis, hoje inteiramente esgotado. Herbert Girardet é autor de 13 livros sobre desenvolvimento sustentável e regenerador, o mais recente dos quais se intitula Criar Cidades Regeneradoras (Creating Regenerative Cities, Routledge, 2014). É um dos autores de um novo livro pelo famoso Clube de Roma (cujo livro Os Limites do Crescimento, de 1972, deu brado), intitulado 10 Mil Milhões de Pessoas, Um só Planeta (10 Billion People, 1 Planet), que deverá sair em 2017. O texto abaixo foi publicado no n.º 298 da revista Resurgence, de setembro-outubro de 2016, ano em que a revista [uma das mais importantes publicações no mundo na expressão de um pensamento e visão fecundos para um planeta Terra de maior equilíbrio entre humanidade e Natureza] comemora o seu 50.º aniversário.

Os subtítulos entre parênteses retos foram introduzidos na tradução.

criar-cidades

setembro 19, 2016


RUMO À CIDADE REGENERADORA

Uma revolução urbana com base em combustíveis fósseis varre o planeta. As aldeias estão a tornar-se vilas, cidades e megacidades. As povoações compactas tradicionais de tijolo estão a aumentar de tamanho tornando-se vastas cidades em expansão sem limite, feitas de alcatrão, cimento armado, aço e vidro. Mas à medida que a humanidade se torna urbana, temos que olhar de frente uma contradição central: as cidades estão a tornar-se o nosso habitat primário, mas a urbanização na sua forma atual está a pôr em perigo o próprio futuro da humanidade e a vida na Terra.

No primeiro número da revista Resurgence [fundada em 1965] editado por Satish Kumar, em 1973, escrevi um artigo sobre o desenho de construção ecológica e novas comunidades. Cerca de 43 anos depois, o mundo urbanizou-se como nunca antes, e a necessidade de habitats humanos eficientes no uso dos recursos e conviviais continua a ser tão urgente como sempre. Estes temas serão dos mais importantes tópicos do programa da cimeira das Nações Unidas Habitat III em outubro de 2016 em Quito, capital do Equador.

 

[TRIUNFO DAS CIDADES OU TRAGÉDIA EM GESTAÇÃO?]

As cidades modernas com milhões de pessoas são certamente realizações espantosas. São os espaços nos quais a humanidade realiza o grosso das suas transações sociais, económicas e culturais. São os principais centros dos sistemas globais de comunicação e transportes. Atraem investidores pois oferecem uma vasta variedade de serviços a um custo per capita comparativamente baixo.

Muita gente celebra o «triunfo» da cidade, mas ele poderia ser também uma tragédia em gestação. Enquanto que as cidades são construídas em apenas uma pequena proporção da superfície terrestre, as suas pegadas ecológicas cobrem atualmente muita da terra produtiva e superfícies marinhas em todo o globo. A população urbana usa o grosso dos recursos mundiais, e é ela quem dá o principal contributo para a poluição, os danos ambientais, a perda de biodiversidade e as alterações climáticas.

Esta época do antropoceno — como alguns cientistas agora dizem que devíamos chamar à presente época para indicar a extensão do atual impacto da humanidade sobre o nosso planeta — é também a época da cidade: as áreas urbanas são a casa da máquina económica do mundo, onde 80 por cento do PIB global é gerado. A demanda urbana de recursos e a consequente produção de resíduos define os impactos no nosso planeta mais do que qualquer outro fator. A urbanização global é por isso uma manifestação primária do antropoceno.

 

[CIDADES DEPENDENTES DOS SISTEMAS VIVOS]

Estas são questões que deveriam ser centrais nas discussões acerca do futuro das cidades. Mas hoje a posição dos urbanistas é estranhamente semelhante à dos astrónomos antes de Galileu: que as cidades são o centro do universo, e é como se os ecossistemas mundiais de algum modo girassem em volta desse centro. Isso é perigoso. Afinal, as cidades são apenas dependências dos sistemas vivos.

Nos países em desenvolvimento milhões e milhões de pessoas lutam por escapar à pobreza, e com razão, e isso muitas vezes significa migrações do campo para as cidades, que oferecem acesso mais fácil à energia, aos recursos e a oportunidades de emprego do que as áreas rurais, bem como benefícios no domínio da cultura, da educação e da saúde. Mas quais são os custos ecológicos? Os impactos ambientais agregados de uma humanidade urbanizada já excedem largamente a capacidade de carga da Terra. Atualmente usamos mais recursos naturais em sete meses do que a Terra pode produzir num ano, num desgaste contínuo das suas reservas de capital natural.

Mas será um mundo urbano inevitável ou existem alternativas? Poderiam as cidades existir e até prosperar com base em recursos regionais mais do que mundiais? Num planeta finito, poderiam elas ser desenhadas para regenerarem continuamente os recursos de que dependem?

A posição da China, o mais populoso país do mundo, é particularmente interessante neste contexto: a China tem o crescimento urbano mais rápido de todo o mundo, prevendo-se que aumente de 54 por cento em 2016 para 60 por cento em 2020. Recentemente houve muita publicidade acerca da intenção da China de criar uma civilização ecológica. Mas, na realidade, a política oficial do governo chinês é basear na urbanização a criação de abundância, não de sustentabilidade. O Plano Nacional de Urbanização de Novo Tipo (2014-2020) do Partido Comunista mostra-o bem: «A procura interna é o impulso fundamental para o desenvolvimento da China, e o maior potencial para expandir a procura interna reside na urbanização.» Desse modo o fim último da criação de um país muito mais urbano é que os urbanitas ajudem a acionar uma economia de consumo mais intensa, em contradição direta com os objetivos de sustentabilidade da China.

resurgence-298

 

O USO DOS RECURSOS NUM MUNDO QUE SE URBANIZA

Diz-se muitas vezes que as cidades são mais eficientes no uso dos recursos do que as zonas rurais. Nos países ricos, a vida urbana pode ser mais eficiente nesse uso do que a vida rural: as pessoas do campo usam frequentemente mais energia no transporte ou para o aquecimento ou arrefecimento de casas isoladas. A concentração de pessoas nas cidades é por isso muitas vezes reivindicada como mais sustentável do que a vida no campo.

Mas o que se passa nos países em desenvolvimento em rápido processo de urbanização? Estudos relativos à China e à Índia mostram que as pessoas que migram do campo para a cidade quadruplicam em média o seu consumo de recursos. As vastas novas cidades nos países em desenvolvimento proporcionam acesso a combustíveis fósseis e um enorme leque de outros recursos e produtos não disponíveis às pessoas na sua anterior situação como aldeões, agricultores ou pastores. O crescimento urbano na Ásia e na África está a tornar-se um fator importantíssimo dos impactos ambientais globais em contínuo aumento da humanidade.

Onde vão parar as vastas quantidades de resíduos sólidos, líquidos e gasosos? Todos temos uma ideia vaga de que os resíduos sólidos que atiramos fora são enterrados em aterros nas proximidades das cidades ou podem ser enviados em camiões para distantes localizações. Mas poucos de nós sabemos o que de facto contém o lixo que descartamos e o que lhe acontece em última instância. As alterações climáticas receberam muita atenção recentemente, mas os nexos entre a urbanização global, os combustíveis fósseis e as emissões de gases com efeitos de estufa quase nem são discutidos.

Outro problema sistémico impressionante é a presença de vastas manchas dos esgotos que emanam das cidades fluviais ou costeiras. O caminho sem retorno dos nutrientes das plantas — desde as explorações agrícolas, via cidades, para o despejo no mar — está a causar centenas de zonas mortas em águas costeiras em todo o planeta. Para além do azoto, potássio e fosfatos contidos nos esgotos provenientes das cidades, fazem igualmente parte dessa mistura os fertilizantes artificiais e os venenos industriais que escorrem dos terrenos agrícolas locais. Num futuro urbano regenerador esses nutrientes das plantas têm que regressar às terras agrícolas que alimentam as cidades.

 

TEORIA DOS SISTEMAS URBANOS PARA O SÉCULO XXI

Se as cidades têm que tornar-se a nossa principal morada, terão que submeter-se às leis da ecologia — a ciência da «construção da casa».

Viver em uníssono com a Terra Viva está a tornar-se uma tarefa central para uma humanidade em processo de urbanização. A economia da Natureza é definida não pela escassez, mas pela abundância. Os ecossistemas não passam de interações sustentadas: a vasta variedade de organismos da Natureza está implicada num dar e tirar que nunca tem fim. Os nutrientes e a energia circulam dentro de limites fluidos, graças à potência da energia solar.

A vida na terra, deixada aos seus próprios mecanismos, tem a capacidade de regenerar. Mas as nossas ações estão cada vez mais a transformar sistemas inerentemente renováveis — solos, florestas, linhas de corais — em sistemas não renováveis. Ao causarmos a erosão desses sistemas vivos em vez de vivermos do seu rendimento regenerador, estamos a privar de opções as gerações futuras.

As cidades têm um metabolismo quantificável: a energia e os materiais entram nas áreas urbanas vindos da biosfera e da economia global, e infiltram-se através delas para regressarem depois à biosfera sob forma degradada. O metabolismo urbano opera atualmente como um sistema de entradas-saídas ineficiente e ruinoso. Precisa de ser transformado num sistema circular de uso eficiente dos recursos. A única forma de superar modelos de uma escassez cada vez maior é que as cidades passem a regenerar continuamente os sistemas vivos dos quais dependem para o seu sustento.

 

CRIAR CIDADES REGENERADORAS?

É nas cidades que a criatividade humana é mais intensa, que novas ideias frequentemente são geradas, e que a maioria das decisões políticas, financeiras e económicas são tomadas. Mas estarão os habitantes das cidades preparados para olhar além das suas preocupações locais imediatas e para dar passos ativos no sentido de contrariar os seus impactos a nível mundial?

O conceito de cidades regeneradoras não se limita a esverdinhar o ambiente urbano e a proteger a Natureza face à expansão urbana física, mas implica que as pessoas das cidades deem passos positivos para criar sistemas regeneradores urbanos de produção, consumo, transporte e construção.

 

REGENERAÇÃO URBANA OU CIDADES REGENERADORAS?

Em anos recentes houve numerosos projetos de regeneração urbana em cidades decaídas de países industrializados. Em localidades como Essen, Sheffield, Merthyr Tydfil, Pittsburgh ou Detroit, a herança ambiental de antigos sítios industriais teve que ser enfrentada como um problema imediato. Concentrar-se neste «programa castanho» equivale a remover uma herança de poluição que ameaça a saúde da população bem como o ambiente mais geral. Construir novas economias nessas regiões urbanas arruinadas é mais um enorme desafio para as iniciativas urbanas de regeneração.

Mas o conceito de cidades regeneradoras vai mais longe: ele incide sobre as ligações entre cidades e Natureza, entre sistemas urbanos e ecossistemas. Para contrariar os prejuízos que estamos a provocar aos ecossistemas mundiais necessitamos de conceber uma evolução urbana regeneradora mais do que simplesmente sustentável.

Uma orientação regeneradora tem a ver com estimular o dinamismo e a abundância da Natureza com base apenas no seu rendimento, e não no seu capital. Precisamos de ajudar a regenerar os solos, as florestas e os cursos de água de que dependem as nossas cidades em vez de nos limitarmos a aceitar que elas sejam «sustentadas» em estado degradado.

Por isso, a orientação urbana regeneradora implica uma relação regeneradora entre as cidades, o mundo natural e a vida futura. Através do mundo, as cidades enfrentam, invariavelmente, desafios diferentes. Na Europa, na América do Norte e na Austrália, o desenvolvimento urbano é limitado e a tarefa mais importante é a de empreender o «restauro ecológico» dos sistemas urbanos. Em países em rápida urbanização na Ásia, África e América do Sul, o desenvolvimento tem que ser inteligente desde o início (smart from the start): definido por elevados padrões de eficiência no uso de recursos, com a energia renovável como componente chave.

Até agora, as iniciativas orientadas para o uso eficiente dos recursos e para a regeneração urbana centram-se antes de tudo o mais nos «ecobairros» em cidades espalhadas pela Europa e Estados Unidos

 

ECOBAIRROS E ECOCIDADES

A energia renovável, a agricultura urbana e o uso eficiente de recursos, tudo isso faz parte da intenção de criar cidades verdadeiramente regeneradoras. Existem algumas áreas urbanas onde se podem ver «ecobairros» que demonstram o que seria possível fazer numa escala mais vasta. Nesses exemplos incluem-se «ecoaldeias» como a de BedZED (Beddington Zero Energy Development) em Sutton, no Sul de Londres; ecobairros em Nancy; Hammarby Sjöstad em Estocolmo; a iniciativa do ecobairro de Portland; a Solarsiedlung («localidade solar») em Freiburg, na Alemanha. Na maior parte dos casos, foram possibilitados por legislação nacional de apoio: os meios para erguer a Solarsiedlung e outros ecobairros e ecoaldeias na Alemanha, por exemplo, foram proporcionados por uma legislação de estímulo às energias renováveis. Milhões de casas por toda a Alemanha foram equipadas com telhados solares e são já um contributo de primeiro plano para o abastecimento do país em eletricidade.

 

SUL DA AUSTRÁLIA UM CASO DE ESTUDO]

Mas há também projetos mais ambiciosos que envolvem o equipamento de cidades inteiras. Em 2003 tive a oportunidade de pôr essas ideias à prova. O então primeiro-ministro da Austrália, Mike Rann [de 2002 a 2011; nascido em 1953], convidou-me para ser «pensador residente» em Adelaide. Ao cabo de um período de dez semanas, que incluiu centenas de seminários e conferências, elaborei um plano em 32 pontos para ajudar a transformar o desempenho ambiental de uma área metropolitana de 1,3 milhões de pessoas. Agora, 13 anos depois, grande parte desse plano foi implementada: 44 por cento da eletricidade da Austrália do Sul é hoje fornecida por tecnologia solar e eólica; a eficiência energética e hídrica tornou-se obrigatória; todos os resíduos orgânicos são reciclados e dirigidos para os jardins e hortas urbanas e terras agrícolas das margens da cidade, que são também irrigadas com esgotos reciclados; foram plantados 3 milhões de árvores para enfrentar a erosão e a poluição do ar; o pedestrianismo e as ciclovias transformaram o interior da cidade. Mais informações em: tinyurl.com/sustainable-adelaide e em thesolutionsjournal.com/node/1153.

O conceito de desenvolvimento regenerador é um novo desafio para a maioria dos decisores políticos, dos urbanistas e do público em geral. Defende que uma profunda remodelação do desenho dos sistemas urbanos é um cenário tipo «todos ganham» com grandes benefícios ambientais, sociais e económicos. Somente com base em recursos energéticos regeneradores e com contínua regneração dos ecossistemas e dos solos de onde retiram a sua sustentabilidade e sustento podem as cidades ser uma morada viável e de longo prazo para a humanidade.

O desenvolvimento regenerador é tanto uma questão de redesenhar as regiões urbanas existentes e de iniciativas que impeçam a urbanização, como, em primeiro lugar, de reforço das comunidades rurais. Trata-se de lidar com desafios existenciais do mundo moderno: encontrar maneiras positivas de minimizar a dependência dos combustíveis fósseis; de contrariar as alterações climáticas; de restaurar a biodiversidade, a resiliência dos ecossistemas e os solos saudáveis; de contrariar a erosão do solo; de reflorestar as bacias hidrográficas e os mangues; restaurar os lençóis freáticos e enfrentar a poluição da água; de caminhar para cidades com zero resíduos.*

 

Este artigo de Herbert Girardet é acompanhado por alguns elementos que o enquadram e complementam: 1 – quadro da evolução da população mundial e da população das cidades; 2 – o caso de Copenhaga cidade regeneradora; 3 – a necessidade de estancar o êxodo rural. No elemento 4 citam-se as 4 leis fundamentais da ecologia, na formulação de um dos mais influentes autores dos anos 1960-70, Barry Commoner, que, aplicadas às cidades, obrigam a uma mudança profunda nos planos de urbanização e na política urbana.

1

A ÉPOCA DA CIDADE

* De 1900 a 2016 o número de seres humanos aumentou cerca de 5 vezes – de 1,5 mil milhões para 7,3 mil milhões.

* A população urbana mundial cresceu 16 vezes para mais de 50 por cento da população mundial.

* Por 2030, calcula-se que 60 por cento da população mundial – 4,9 mil milhões de pessoas – viverá em áreas urbanas, três vezes mais do que a população total em 1900.

* Nos países em desenvolvimento, à medida que os aldeãos se mudam para a cidade, o consumo de recursos per capita aumenta em média quatro vezes.

* A quase totalidade do aumento da população está ocorrendo nas cidades, e Mior parte nos países em desenvolvimento.

* As cidades, localizadas em 3-4 por cento da superfície terrestre mundial, usa 80 por cento dos seus recursos, e produz a maior parte dos resíduos sólidos, líquidos e gasosos.

2

SINAIS PROMISSORES: COPENHAGA

Em Copenhaga, a qualidade de vida, a sustentabilidade e a evolução regeneradora foram combinadasa de maniera muito eficaz. Tudo começou nos anos 1960 quando a câmara de Copenhaga decidiu criar uma enorme zona pedonal em redor do seu centro histórico. Mas não ficou por aí. A pedonalização foi combinada com a criação de ciclovias, redes de transportes públicos, sistemas combinados de energia e aquecimento e projetos de reciclagem. Copenhaga quer tornar-se a primeira capital do mundo neutra em carbono até 2015, combinado 50 diferentes iniciativas, incluindo transportes integrados, arquitetura verde, aquecimento de bairros, parques eólicos na e em torno da cidade, transporte elétrico, uma rede elétrica inteligente e gestão eficiente de resíduos.

3

ESTANCAR A DERIVA PARA A CIDADE

Especialmente promissora é uma iniciativa específica na Índia que está efetivamente a estancar a migração das regiões rurais para as cidades: uma organização chamada Alternativas de Desenvolvimento (DA Development Alternatives), dirigida por Ashok Khosla.

Esta iniciativa de uma empresa social de larga escala, já premiada por múltiplos prémios, concentra-se na subsistência sustentável e no empoderamento comunitário dos aldeãos, capacitando-os a viver vidas realizadas sem serem forçados a tornarem-se migrantes para as cidades. Teve impacto em milhões de aldeãos em toda a Índia. DA concebe utensílios, técnicas, sistemas de gestão institucional e de recursos que capacitam comunidades a aprender com a Natureza e promovendo práticas agrícolas sustentáveis, tecnologias de ecohabitação, formação para a criação de postos de trabalho e comunicações rurais. Atenção especial é dada também à capacitação das mulheres nesse processo, por meio de formação para habilitações e educação. Na net: devalt.org

4

AS QUATRO LEIS DA ECOLOGIA
segundo Barry Commoner no livro The Closing Circle, de 1971

  1. Tudo está ligado com tudo o mais. Existe uma única ecosfera para todos os organismos vivos, e o que afeta um deles afeta a todos.
  1. Tudo tem que ir para algum lado. Não existe «lixo» na natureza e não há nenhum «lá fora» para onde o possamos atirar.
  1. A Natureza sabe mais e melhor. A ausência de uma substância específica na Natureza é muitas vezes sinal de que essa substância é incompatível com a química da vida.
  1. Nada procede do nada. A exploração da Natureza acarreta sempre custos ecológicos, e esses custos são significativos.
Imprimir esta página Imprimir esta página

Deixar comentário