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CLUBE DE LEITURA SEGUNDA FASE

NOTA DE ABERTURA 
Colocado em 28-11-2020

Com a irrupção da pandemia viral em final de fevereiro de 2020 e com o estado de emergência e confinamento decretado em 16 de março seguinte, ficaram suspensas as sessões presenciais do Clube de Leitura da Campo Aberto e as respetivas Sugestões de leitura.

Decidimos entretanto recomeçar o ciclo mas apenas por meio de artigos em linha neste nosso espaço digital. Dado que a viragem para debates virtuais (telerreuniões, webinários, covídeos e semelhantes) se revelou por toda a  parte como a alternativa dominante ao presencial, verificámos que tal conduziu rapidamente a algum sobretrabalho e cansaço. Optámos por isso por esta solução, mais discreta, de inserir nesta página notas de leitura redigidas pelas pessoas que estavam já convidadas na anterior fase presencial, e a que outras se seguirão. Quanto à conversa propriamente dita, que sem dúvida fará falta, sugerimos que nos sejam enviados comentários para contacto@campoaberto.pt ou diretamente colocados no local apropriado deste e-sítio.

Outras obras da Biblioteca que abordam o tema da ecologia na perspetiva religiosa, ética ou bioética, tal como o artigo seguinte, vão indicadas no final dele.

 

VIDA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS
Agostinho da Silva
Livro apresentado por Margarida Magalhães
Colocado em 28 de novembro de 2020

 

 

Há cerca de um ano, em preparação de uma sessão do Clube de Leitura que aceitei apresentar, tentei encontrar na Biblioteca da Campo Aberto um livro que me interessasse e que tivesse alguma ligação com a defesa do Ambiente. Encontrei o livro Vida de Francisco de Assis de Agostinho da Silva (Editora Ulmeiro, cota na biblioteca CA:  2-36 – SIL-VID, registo n.º 384)  que li com muito interesse e que serviu de base ao meu trabalho.

Ao longo da minha vida profissional e amadora, andei sempre dividida (ou ligada) entre as Ciências da Natureza e a Música. Pensei, então, que procurar conhecer a vida de Francisco de Assis (talvez o primeiro ecologista) e ligá-la à música poderia fazer sentido. Francisco era poeta e gostava de cantar os salmos que escrevia.

Os relatos frequentes das vidas de santos referem pessoas que na juventude passam por uma vida de luxo, aturdimentos, desregramentos, e que a certa altura sentem um apelo à vida espiritual, à salvação pessoal e à vontade de contribuí­rem para um mundo melhor. Francisco de Assis não foge a este estereótipo.

O texto que escrevo baseia-se em factos comprovados historicamente mas também terá algumas fantasias, que fui encontrar noutras biografias, que aludem a lendas relacionadas com o santo de Assis.

Uma vida e uma obra
Francisco nasceu em Assis em 1181 (ou 2), filho de Pietro di Bernardone, comerciante rico de tecidos, e de Pica Bourlemont, pertencente a uma famí­lia nobre da Provença. Estudou na escola episcopal e ajudou o pai no trabalho da loja, sendo que não se sentia muito atraído por nenhuma das tarefas.

 

 

Era um rapaz manso, generoso e simpático que fazia facilmente amigos, mas a relação com o pai era conflituosa. Vivenciou várias fases de indecisão, ora cultivava o gosto da vida em sociedade, ora sentia necessidade de se recolher ao silêncio, caminhar pelos montes, refugiar-se em grutas, entreter-se olhando as aves, em meditação e contemplação.

Foi-se afastando da vida mundana e aproximou-se da Igreja onde encontrou pelo menos um interlocutor que o ajudou a crescer na fé e intelectualmente.

Simultaneamente procurou relacionar-se com gente humilde e trabalhadora, como os pescadores dos lagos com quem iniciou o hábito da pregação, hábito esse que se viria a prolongar por toda a sua vida.

 

 

Fascinado pela Natureza
Assim como amava e convivia com homens simples, também era fascinado pela Natureza. Tratava todos os seres como seus irmãos. Há relatos de que retirava dos caminhos animais muito pequenos para que não fossem pisados por ninguém. Colhia sementes para alimentar os pássaros, dava vinho e mel às abelhas, etc.

Na sua opção pela simplicidade era frugal na alimentação e poupado na roupa; uma túnica lhe chegava e andava descalço. A alegria que cultivava consistia na defesa da liberdade de espírito, na procura de uma vida comunitária e na ação sobre um mundo que queria transformar. Como indivíduo atento ao seu tempo, amarguravam-no os interesses mesquinhos dos homens e o poder e riqueza de que a Igreja gozava.

Criticou o espí­rito e a realização das cruzadas que terão começado com a intenção de resgatar a Terra Santa e o desejo de converter muçulmanos, mas que, na realidade, se transformaram num movimento para adquirir vantagens para certos grupos e, em muitos casos em pilhagens e conquistas de terras.

Entretanto, Francisco alistou-se na guerra ao lado da burguesia e do povo de Assis contra os nobres de Perúsia. Dessa refrega resultou ter sido preso durante um ano e ter contraído doenças que se fizeram sentir com mais ou menos gravidade ao longo da sua vida. Apesar de ter estado do lado dos mais fracos, a experiência de ser guerreiro não lhe agradou.

Paz e tolerância
Quis ser um Homem de paz e agir sobre a sociedade servindo-se dos instrumentos que foi construindo – a palavra, as ideias, os sentimentos de tolerância e de aproximação entre comunidades diferentes (religiosas ou outras). Para Francisco era mais importante anunciar o Evangelho e praticar a caridade e o amor ao próximo, desenvolvendo uma profunda identificação  com os problemas dos outros; inclusive, cuidar de doentes, entre eles, «o leproso», a quem conseguiu beijar apesar da repulsa inicial.

Depois de viver anos em comunidade, em 1210 vai a Roma com os seus doze discí­pulos e consegue licença para fundar a Ordem dos Frades Menores. Há cerca de oitocentos anos e enquanto decorria a quinta cruzada, arriscou encontrar-se com o sultão do Egipto, Mlik el Kamil, para com ele dialogar. Este sultão também se revelou como um Homem de coração aberto. Depois de vários dias de conversações finalizaram o encontro com uma oração em comum ao «mesmo» Deus.

 

 

Todos irmãos
Em 2019 o Papa Francisco, com a mesma intuição de há oito séculos, realizou uma visita histórica aos Emiratos Árabes. A 3 de Outubro de 2020, como assinalou José Tolentino Mendonça no Jornal Expresso, «o Papa está em Assis para uma operação carregada de simbolismo: assinar junto ao túmulo de S. Francisco de Assis a sua encíclica Omnes Frates.» Afirma o Papa: «este santo do amor fraterno, da simplicidade e da alegria, que me inspirou a escrever a encíclica  Laudato Si’, novamente me motiva a dedicar esta nova encíclica à fraternidade e à amizade social».

São Francisco e a Ópera de Olivier Messiaen

[Meramente a título de exemplo, fica abaixo audível o «Canto da Toutinegra» desta Ópera que  tem por tema São Francisco de Assis]

 

 

Como Francisco de Assis era poeta e amava o canto dos pássaros e o canto dos homens, lembrei-me de o relacionar com Olivier Messiaen. Messiaen (1908-1992) foi compositor, organista, pedagogo e ornitólogo. As suas composições estão associadas à Fé católica. Para o confirmar basta atentar em alguns títulos de partituras suas: «Louange», «Vingt regards sur l’Enfant Jésus», «Trois petites Liturgies», «Quatuor pour la fin du Temps», etc.

 

 

A sua Ópera (texto e música) Saint François d’Assise foi inspirada no livro Fioretti, escrito provavelmente por frades franciscanos colegas de S. Francisco ou que viveram num perí­odo imediatamente posterior à  sua morte. Este livro narra acontecimentos da vida do santo. O libreto da Ópera é também baseado em escritos de S. Francisco, suas regras, seu testamento, suas orações e, sobretudo no Cântico das Criaturas, seu poema mais célebre.

A quem afirma que a partitura não é uma Ópera porque não se trata de um drama propriamente dito, Messiaen responde que, neste caso, o «drama» é «o combate interior entre a Graça e o Homem», ou seja, «o percurso da Graça na alma de S. Francisco».

A música segue o texto passo a passo. As personagens da Ópera são acompanhadas pelo canto de uma ave. A Gerygone (ordem dos passeriformes), confiada a um flautim e um xilofone, acompanha o Anjo. A capinera ou toutinegra (também da ordem dos passeriformes, Sylvia atricapilla) confiada às madeiras (flautas e clarinetes), acompanha S. Francisco.

 

Foto de Raimundo Quintal, com os nossos agradecimentos. O fotógrafo e cientista comenta: a toutinegra gosta de tangerinas…

 

O que diz Messiaen por música é idêntico ao que diz Pedro Tamen por palavras no prefácio do livro (primeira edição Moraes Editores, atual reedição na Editora Paulinas) que passo a citar: É no

«sentimento poético do mundo, tornado explosivo por um temperamento
meridional e sobrenaturalmente enriquecido e iluminado
pela Graça… [que se] enraíza toda a maravilhosa lição de S. Francisco:
a pobreza, a caridade, a simplicidade, o espí­rito de infância,
o amor ao real concreto e próximo, concebido
como dádiva do Criador e prolongamento da Cruz».

 

 

As vinhetas são alusivas ao tema do artigo, com predomínio de ilustrações que evocam a figura de São Francisco. As imagens fotográficas são a capa e contracapa do estojo do CD com a obra de Messiaen  Saint François d’Assise, gravada ao vivo no Festival de Salzburgo, referência 445 176-2,1999, Deutsche Grammophon Gmbh, Hamburg, impresso e fabricado na Alemanha, com José van Dam,  Dawn Upshaw, coro Arnold Schonberg, Halle’ Orchestra, e Kent Nagano.

Algumas outras obras da Biblioteca da Campo Aberto
relacionadas com uma perspetiva religiosa,
ética ou bioética da ecologia

Louvado Seja: Carta  Encíclica Laudato Si’ sobre o Cuidado da Casa Comum, Papa Francisco (Editora Paulinas – Secretariado Geral do Episcopado; registo n.º 1285; cota 2-23-PAP-LOU)

Catecismo de Ecologia, J. Vasconcelos Sobrinho (Editora Vozes, registo n.º 430, cota  574-SOB-CAT)

Bioética para as Ciências Naturais, Humberto D. Rosa, coordenação e revisão (Edição FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento; registo n.º 149, cota 502:172-ROS-BIO)

A Natureza Reencontrada, Jean-Marie Pelt (Edição Gradiva; registo n.º 278, cota 008-PEL-NAT)