• Abr : 24 : 2019 - Poluição Luminosa
  • Ago : 11 : 2014 - Apelo ao boicote de alimentos com milho transgénico
  • Nov : 23 : 2011 - Petição pela salvaguarda das Sete Fontes
  • Jul : 6 : 2011 - Perigo para Paisagem Protegida Valongo
  • Jun : 17 : 2010 - Corte de Árvores na Circunvalação – resposta da C.M. Porto

SÉRIE AS POLUIÇõES SILENCIADAS
Colocado em 9 de setembro de 2019

Em série iniciada em 25-04-2019, As Poluições Silenciadas, que começa com uma rubrica sobre Poluição Luminosa, abrimos uma reflexão sobre contaminações e agressões do ambiente pouco conhecidas do grande público.

Hoje colocamos um primeiro elemento de uma nova rubrica da série, desta vez sobre mineração.

Outras formas de poluição mal conhecidas do grande público, como a poluição eletromagnética, a radiatividade emitida por fontes de baixa intensidade ou por centrais nucleares em funcionamento dito normal, os perturbadores endócrinos, o fracking, as grandes barragens, a poluição eletrónica, a poluição por medicamentos, etc, irão sendo analisadas à medida das nossas possibilidades.

António Sabler Terra Água Verdura

 

AS MINAS, O AMBIENTE E A ECONOMIA
Colocado em 27 de setembro de 2019

Manuel Gomes Guerreiro, agrónomo e silvicultor, investigador, professor catedrático, com atividade universitária em Moçambique e Angola, criador e primeiro Reitor da Universidade do Algarve, cientista, ecólogo e ecologista, titular da Secretaria de Estado do Ambiente no I Governo Constitucional de 1976, que tinha como primeiro-ministro Mário Soares, lançou, enquanto secretário de estado do Ambiente, a coleção O Ambiente e o Homem, da qual constou o livro por ele próprio escrito A Política do Ambiente e a Qualidade de Vida.

Desse livro (página 39) extraímos uma pequena subsecção, intitulada Minas, do capítulo «Principais problemas desestabilizadores dos sistemas ecológicos», que adiante transcrevemos.

Manuel Gomes Guerreiro nasceu em 1919 faleceu no ano 2000 e acaba de ser homenageado pela Universidade do Algarve, no centenário do seu nascimento, com a criação de um prémio que tem o seu nome.

É claro que ninguém, nem nós pretendemos fazê-lo, pode assegurar qual seria a posição de Manuel Gomes Guerreiro sobre a atual febre mineira que grassa no país. No entanto, o texto define os parâmetros em que o problema pode ser pensado do ponto de vista da defesa do ambiente e das pessoas.

Hoje toda a gente pretende passar por amiga do ambiente e muita coisa que se faz pretensamente a favor do ambiente implica na verdade ações imensamente destrutivas para ele. Pensamos assim que é útil referir esses parâmetros vindos de uma época em que essa febre não se antevia e de um homem que poucos igualaram na autêntica defesa do ambiente em Portugal.

O texto refere-se à mineração em céu coberto. A mineração a céu aberto, embora já devastadora em alguns países, não estava à época ainda vulgarizada em Portugal. Se a condição dos mineiros em galerias subterrâneas era extremamente dura, a mineração a céu aberto, hoje quase a única que se pratica, e que pode em alguns casos praticamente dispensar toda e qualquer mão de obra, tem no entanto impactos pesadíssimos sobre o ambiente e portanto sobre as pessoas que habitam as regiões afetadas.

Refira-se que o livro de onde é extraído este curto texto foi prefaciado por Henrique de Barros, presidente da Assembleia Constituinte de onde saiu a atual Constituição da República Portuguesa, agrónomo e economista agrário, tradutor do grande ecologista francês e também agrónomo René Dumont, primeiro candidato em todo o mundo, em nome da ecologia, à presidência de um Estado (República Francesa).

O livro pode ser consultado na biblioteca da Campo Aberto, através de marcação (contacto@campoaberto.pt).

 

MINAS
Manuel Gomes Guerreiro
in A Política do Ambiente e a Qualidade de Vida
1977, página 39

Os efeitos provocados pelo homem nas explorações de minerais são simultaneamente de exaustão do produto, de poluição do meio e de degradação da paisagem. Quer se trate de furos de petróleo quer de simples saibreiras, a homem procede a explorações descuidadas, tendo em conta apenas a economia, a eficácia e a simplicidade do processo, desligado de uma visão global do Ambiente e dos interesses de todos. Durante e após uma exploração mineira, a paisagem fica ofendida, por vezes para sempre, e não raro os produtos concentrados assim obtidos dão origem a problemas de poluição intensa, tal como acontece com gases e petróleos. Nesta, mais ainda do que nas restantes atividades primárias [atrás referidas], o homem sofre diretamente as consequências perniciosas de trabalhos feitos a céu coberto, por vezes em condições de grande agressividade para o conforto, o equilíbrio biológico e a saúde, muitas vezes responsáveis pela diminuição sensível da esperança de vida. E desta forma, conspurcando o Ambiente, se sacrificam os homens que aí trabalham e se descura o bem-estar das gerações vindouras que irão receber um delapidado património de quem morreu afogado na fartura, no desperdício e no lixo.

 

MINERAÇÃO POLUIÇÃO SILENCIADA
Nota: este artigo é ilustrado com duas fotografias de
António Sabler, nenhuma das quais se situa em zona de mineração
Simbolizam a água, a terra e a vida

Colocado em 9 de setembro de 2019

A extração de minérios da Terra é talvez a mais antiga indústria pesadamente poluente. Só após a revolução industrial terão surgido outras indústrias de gravidade e impacto comparáveis. Aliás, a revolução industrial não teria existido sem que a mineração do carvão se tivesse transformado em atividade social e ambientalmente devastadora. Apesar disso, os efeitos da mineração, exponenciados na nossa época mais recente pela exploração a céu aberto, são pouco conhecidos do grande público, mesmo daqueles setores que estão mais ou menos conscientes da gravidade da crise ambiental.

Quando, a partir dos anos 1960-70, surgiu e se reforçou no mundo o moderno movimento ecológico, alguns setores tiveram a ambição de evitar o mais possível o uso de produtos derivados da atividade mineira, reabilitando o uso de utensílios domésticos como talheres e louças feitos de madeira ou de outros materiais de mais fácil acesso. Uma atitude talvez simbólica mas que ia de par com propostas de superação do consumismo, com a denúncia da obsolescência programada, com o incentivo à reutilização de objetos e de materiais, um entrelaçado de comportamentos que convergia na busca de modos de vida individuais e coletivos menos agressivos para a Terra e para a humanidade.

A CÉU ABERTO
À medida que a mineração subterrânea tradicional ia sendo substituída pela escavação a céu aberto com máquinas cada vez mais potentes, mais patente ficava a capacidade de destruição e perturbação dessa indústria, não só dos solos mas também dos aquíferos e mananciais, com a consequente contaminação da água e o recurso a químicos nocivos para a vida humana e de toda a natureza. A paisagem é outra das vítimas, usando o sentido que lhe foi dado pelo nosso gande paisagista Ilídio Alves de Araújo, em que paisagem é não propriamente um quadro cénico belo para os olhos, mas uma unidade económica assente em critérios de respeito pelas aptidões locais e como tal «explorada», sendo isso que, de forma intrínseca e simultânea, a torna de facto bela. Assim, destruir uma paisagem é não apenas um crime estético mas um crime económico… mesmo que no curto prazo pareça economicamente muito «rentável».

Nos Estados Unidos, por exemplo, na segunda metade do século XX, regiões inteiras foram e continuam a ser sacrificadas à extração de minérios, em especial do carvão e agora também das areias betuminosas e do gás de xisto. Os cumes de colinas, montes e montanhas foram e são arrasados. Como previra o pioneiro do pensamento ambiental George Perkins Marsh (1801-1882), e, hoje em grau bem maior do que ele pudera constatar, em meados do século XIX a humanidade tornara-se uma força geológica.

Sobre esse processo de desmonte na região dos Apalaches, o jurista e escritor Harry Caudill registou em comoventes testemunhos (livros de verdadeiro Requiem como «A noite cai sobre a região de Cumberlands» ou «A minha terra está a morrer», este de 1973) como essa atividade devorava os solos, as terras agrícolas, os espaços de vida humana e os habitats para o mundo vegetal e animal. Nos dias de hoje, até na supostamente ecológica Alemanha, a exploração a céu aberto do carvão vem destruindo florestas e aldeias inteiras, e até mesmo catedrais.

A corrida às terras raras, entretanto, generalizava-se no mundo, acicatada pela febre da inovação tecnológica em que os chamados setores de ponta investiram a miragem de um paraíso terrestre sem efeitos colaterais e em que só muito lenta e palidamente iam transpirando para a opinião pública os horrores em que essa febre assentava, desde a concorrência sem quartel até às guerras manipuladas nos bastidores, deixando devastadas algumas regiões do mundo das mais pobres, já cobiçadas por cobiças novas e antigas. Nas últimas décadas, alguns processos extrativistas de grande envergadura encontraram na América do Sul e noutras regiões do mundo a oposição e a resistência firme das populações afetadas.

Será esta uma visão demasiado escura das realidades da mineração? Mas não nos pregam hoje — as mesmas entidades políticas que querem promover entre nós uma grande e nunca antes vista vaga de extração de minérios — as virtudes da economia circular em que nada é lixo e tudo se reaproveita e prossegue o seu ciclo de vida em metamorfoses sucessivas? Mas os impactos da mineração maciça, os mais graves deles, não são eles irreparáveis, e as promessas de remediação e remonte um manto de fantasia futura a cobrir a realidade implacável do presente?

Que seja necessária uma fase de transição, em que a mineração, rodeada de grandes cautelas e moderada por exigentes padrões ambientais que a circunscrevam a um estrito mínimo, é inegável. Mas isso nada tem a ver com a dimensão para que se vem apontando a maior parte das vezes. Manter essa dimensão hiperbólica é o mesmo que condenar qualquer circularidade na economia (sem dúvida necessária e urgente, se entendida de forma coerente e decidida, e não apenas como retórica em contradição com as realidades mais óbvias dos comportamentos económicos e comerciais) a não passar de palavriado.

EM PORTUGAL
Da mineração em Portugal ficaram vagamente na memória moderna, entre outros, alguns episódios relacionados com a extração do carvão, a fama dos novos ricos do volfrâmio durante a segunda guerra mundial e as doenças dos mineiros do urânio na Urgeiriça. De resto, não pareceria que fosse uma indústria muito presente nas ambições dos interesses económicos e das autoridades políticas. No entanto, começa agora a levantar-se a ponta de um véu que durante pelo menos uma década foi mantido na obscuridade.

E assim surgem em pouco tempo informações de projetos e de concessões de explorações mineiras simultaneamente em numerosos pontos do país e abarcando vastas extensões de território. Apanhadas de surpresa as populações, inquietam-se alguns setores mais atentos aos impactos ambientais das atividades poluentes, informam-se, estudam o que se passa pelo mundo neste domínio e recusam-se a ser postos perante factos consumados. Querem saber e querem fazer-se ouvir.

Muita coisa está por esclarecer neste domínio. Nesta fase, sem poder fazer pronunciamentos definitivos, a Campo Aberto procura esclarecer-se e contribuir para o esclarecimento público. Procuraremos acompanhar de modo vigilante e crítico as operações económicas e políticas que rodeiam o assunto, e apoiar  o esforço de populações — esquecidas ou até fustigadas por diversos tipos de agressões e marginalizações — na defesa do seu meio e modo de vida.

A VAGA DE MINERAÇÃO A CÉU ABERTO
Como primeiro passo e contributo seu para a análise, debate e reflexão, a Campo Aberto promove na quarta-feira 9 de outubro, às 21:00, na sua sede no Porto, uma tertúlia intitulada «A vaga de mineração a céu aberto e a sobrevivência do Interior – alternativas».

Essa atividade é também o contributo da associação ao Dia de Ação Comum pela Natureza com que diversas associações e coletivos, cada qual com os temas, as formas e a data (de 7 a 14 de outubro, de preferência, ou o mais próximo possível) por si escolhidas, pretendem cultivar e celebrar a cooperação e convergência decorrente dos dois encontros já realizados no espírito da Carta de Famalicão.

DIA DE AÇÃO COMUM

Convergência Ecológica e Ambiental

www.carta-de-famalicao/webnode.pt/dia-de-açao-comum/

 

Foto António Sabler Árvores Agua

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7 comentários até agora.

  1. Maria Dalila AnteloTeixeira diz:

    Excelente texto. Muito pertinente. Ajuda-nos a reflectir sobre as novas demandas e novas formas de mineração.

  2. Maria do Carmo Mendes diz:

    É com enorme honra que irei participar no evento. Muito obrigada!

  3. Eduardo Jorge Carvalho Ferreira diz:

    Sendo certo que a história se faz do «somatório dos presentes» e que nesses «presentes» tem principal intervenção o poder económico, me parece que esse poder sempre usa como justificação o benefício público. Sendo que aí as políticas públicas tendem a negar os prejuízos locais e a evidenciar os benefícios da dita economia. E dessa forma a maioria daqueles que se preocupam com o equilíbrio e a continuidade de «Casa Comum» e dos seus recursos, vêm sendo ignorados e até classificados como detractores e inimigos da «evolução».

    A exploração mineira teve sempre impactos e prejuízo para as populações locais.Já era assim na época dos Egípcios, Romanos, Bárbaros, Cruzados, Carvão/Petróleo/Aço, Silício,… novos «Bárbaros» com Terras Raras, a Energia Nuclear, a Electricidade, o Lítio, e talvez logo a seguir com o Magnetismo.

    Temos que lembrar que normalmente os maiores prejuízos para as populações locais advêm do facto de não se ter acautelado o impacto local da extracção e transporte das matérias até ao local de uso, auxência de reposição e conservação dos solos, tratamento/protecção dos resíduos, minimização dos efeitos dos micro-climas criados, vantagem em acautelar a circulação de águas, areias e biodiversidade. Proteger toda a cadeia biológica dos ruídos e poeiras…

    Manter o ambiente visual, geográfico e viário sem armadilhas futuras. No fundo, mostrar aos ditos empreendedores que a «riqueza» de uns não pode ser directamente proporcional aos prejuízos «directos» dos outros que acabam sempre ignorados e portanto vitimas.

    E sabemos que mesmo em relação ao lítio/baterias/movimento já existem patentes tecnológicas que aproveitam muitos outros recursos que podem minimizar enormemente o efeito da massificação e do largo consumo na produção automóvel.

    Penso que a «discussão» da posse e exploração de terras e recursos minerais já aconteceu há muitas décadas quando o Estado definiu a propriedade/organização/extração/uso, dos recursos minerais e ambientais. A primeira prioridade era banir os combustíveis fósseis ainda antes do fim do século passado. Não foi possível. Agora só nos resta tentar minimizar as consequências e ir criando as alternativas possíveis…

  4. Bruno Lima diz:

    Comentário de leitor muito ligeiramente editado pela Campo Aberto:

    Há que sermos específicos do exemplo em mãos.

    Nº 1 – Que poluição faz a escavação/extração de lítio? Falo especificamente, não o que aconteceu noutros sítios, outras matérias como o carvão, mas especificamente no processo de extração de lítio, quais os inconvenientes, e que tipo de poluição inerente. Falem como se fôssemos peritos, porque de outra forma estarão a generalizar e parece que só se critica por criticar, nesta onda new age de vegetarianismo, veganismo, vamos salvar o planeta e depois tomam-se atitudes sem princípios ou fundamentos. Precisamos estar atentos a isto.
    nº 2 – Terá de pesar-se o que é bom para a nossa economia, mas temos de ser nós a mandar nos nossos recursos e não deixarmos as empresas internacionais virem explorar o nosso terreno e recebermos uma ínfima parte. Tome-se o exemplo da agricultura, onde existe o potencial, mas a proibição de exploração e consequente importação de matérias que poderiam ser produzidas cá.
    nº 3 – Pode haver quotas de proteção de ecossistemas, e terem de ser respeitadas.
    nº4 – Poderá traduzir-se também em oportunidades de emprego, formação de novas empresas nacionais, bem como permitir às empresas nacionais comprar matéria prima a um custo reduzido.

    Eu não sou expert na matéria, bem pelo contrário, mas sou contra a informação desorganizada; como tal, gostava de ver especialistas na matéria a pronunciarem-se, a formar equipas multidisciplinares e explorarem as hipóteses que temos e não abandonar à partida, sem se ter feito este exercício!

  5. Campo Aberto diz:

    Esclarecer e debater para compreender melhor é o nosso objetivo. O debate no que nos diz respeito está agora a começar e não se pode tratar de tudo de uma só vez. O nosso papel como associação de defesa do ambiente é dar prioridade à defesa do ambiente e dos valores naturais bem como à qualidade de vida e aos direitos das populações. O ponto de vista oficial da administração e dos governos é conhecido, é insistentemente proclamado e não precisa de nós para se fazer ouvir. O mesmo não acontece com as populações afetadas por eventuais destruições e impactos negativos. Por outro lado, as vantagens económicas de curto prazo devem ser confrontadas com as vantagens económicas de longo prazo. As primeiras facilmente degeneram em destruição do suporte das condições naturais da vida. As segundas preservam estas e, podendo ser aparentemente menos vantajosas no curto prazo, são as que de facto salvaguardam a economia das gerações vindouras. É também o ponto de vista destas (por nós interpretado, é claro) que interessa defender. Obrigado ao Bruno Lima pela intervenção, fazendo votos por que queira prosseguir o diálogo noutros contextos, por exemplo na tertúlia que organizamos na quarta-feira 9 de outubro.

  6. Eduardo Jorge Ferreira diz:

    Subscrevo integralmente os reparos feitos. A intenção foi estimular/colaborar no debate da IDEIA. Sempre que há uma exploração mineira, não só a céu aberto, quase sempre se ignoram as populações locais e a titularidade dos recursos em questão. Isso me parece errado.

    Na questão do lítio, mesmo que os prejuízos fossem apenas as poeiras, o ruído e o trânsito, isso já seria suficiente para que se tomassem precauções acrescidas. Mas creio que há mais condicionantes. Para nós,
    (portugueses), ficam os problemas e os escombros. Mas é público que há entre os promotores e exploradores outros problemas, e queixas em tribunal.

    Como sempre, os governantes/políticos pouco se esforçam por mostrar a clareza das suas atitudes. Lembro-me de que há alguns anos companhias mineiras australianas/americanas compraram os «direitos» de exploração da maioria dos nossos recursos geológicos. E disso pouco se consegue saber. A mim parece-me mau negócio para as localidades.

  7. Teresa Fontão diz:

    Texto interessante e abrangente, mas necessariamente ele é apenas uma introdução ao tema. Por esse motivo, leitores procurando respostas concretas por peritos sobre a proposta mineração de lítio em Portugal podem ter a certeza de que as irão obter na tertúlia, e eu espero que estejam presentes.

    A preocupação das pessoas nas áreas afectadas é justificada, por motivos sociais e ambientais, mas sobretudo por motivos económicos. Estamos a falar de uma grande percentagem do território nacional, de minas a céu aberto de tais dimensões que não cabem entre aldeias e necessariamente engolirão casas e terrenos; de desflorestação massiva; de desvio de cursos de água, seca de furos, poluição de rios e lençóis freáticos; de desvalorização do património construído e a destruição de todos os outros recursos primários: agricultura, vinicultura, silvicultura, criação de animais, águas termais e minerais, pesca e caça; estamos ainda a falar da violação de zonas internacionalmente consagradas como de especial interesse para a conservação da natureza, património mundial da agricultura, biosfera, e habitats de espécies protegidas; e, finalmente, a realidade de que cada emprego criado nas minas acabaria com pelo menos dois empregos melhores, duraria menos que dez anos, e causaria um regresso à desertificação e pobreza de outrora.

    A isso acresce a ameaça ao turismo sustentável, ao artesanato tradicional e outras actividades terciárias. Excepto as farmácias e os cangalheiros — esses certamente fariam mais negócio.

    Apostar no lítio como única fonte de rendimento de uma região com muitos mais potenciais é um risco inaceitável, e pôr Portugal à venda em leilão público, em lotes que incluem uma população estupefacta que foi deliberadamente excluída do diálogo, é um golpe baixo na nossa Constituição.

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