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Introdução
Pequena antologia
Nota biobibliográfica sucinta
Artigo de António Cândido Franco no n.º 5 de Ar Livre (actualmente editado pela Campo Aberto) sobre Teixeira de Pascoaes

1. Introdução

Para os leitores da revista Ar Livre (actualmente editada pela Campo Aberto), não será surpresa a ideia de visitar a Casa de Pascoaes. Na série que a revista tem editado com o título «O Sentimento da Natureza na Cultura Portuguesa», um dos primeiros nomes abordados foi precisamente o de Teixeira de Pascoaes (ver adiante, secção 4).
Para quem não ignora a imensa estatura do Poeta do Marão e a presença da natureza e da dimensão cósmica na sua obra, também não surpreenderá que uma associação de defesa do ambiente lhe preste homenagem e por ele se interesse.
Pascoaes foi considerado por Mário Cesariny, a grande figura do surrealismo português, como poeta bem mais importante que Fernando Pessoa. Não tem hoje porém a reputação pública do poeta da Mensagem. Não vamos agora deter-nos nas razões disso nem no seu significado. O certo é que nenhum poeta ou escritor português do século XX manifestou como ele na sua obra uma presença tão forte da natureza e da humanidade na natureza, não apenas a natureza amável e romântica mas a natureza na sua força e enigma cósmicos.
Alguns poucos poemas escolhidos para esta ocasião poderão dar-nos uma ideia dessa presença.

2. Pequena antologia

Lembremos de início o poema reproduzido na página 21 do n.º 18 da Ar Livre, recentemente editado, no qual, em poucos versos e apenas duas estrofes, Pascoaes revela o sentimento de unidade que o liga a todas as criaturas vivas e mesmo às que vulgarmente se consideram unicamente inertes:

A Sombra Humana

Quando passeio, ao longo dos caminhos,
Batem asas de medo os passarinhos,
Escondem-se os répteis, no tojo em flor.
Meu ser espalha um trágico pavor
Nas pobres criaturas
Que, neste mundo, vivem, às escuras!

Avezinha fugindo ao ruído dos meus passos,
Se o que eu sinto por ti, acaso, pressentisses,
Tu virias fazer o ninho nos meus braços…
Virias ter comigo, ó pedra, se me ouvisses!

(in Vida Etérea)

O Marão, a montanha, é indissociável da imagem de Pascoaes. «Pensar como uma montanha», na expressão do grande cássico da natureza que foi Aldo Leopold, eis algo que era familiar a Pascoaes, e que funda uma maneira de ver e sentir nos antípodas do frenesim apressado do mundo actual.

Invocação à Montanha (fragmentos)

«Terra bendita e santa! Terra estranha
Dos tristes pinheirais e alegres campos,
Ei-la Silêncio, Solidão, Montanha!
Ei-la a fronte coroada de relâmpagos!
Ei-la o ninho das águias, das procelas,
O retiro sonâmbulo das nuvens…
Ei-la um altar onde ardem as estrelas!

Montanha consagrada, eleita e virgem!
Alto Templo de terra, onde o luar
É tão saudoso canto que os penedos
E os lobos ficam tristes, a cismar…
……

Ó Montanha num êxtase profundo!
Ermos planaltos contemplando Deus!
Serros meditativos, altos píncaros,
Num grande voo da terra para os céus!
……

Fisionomias trágicas de pedra,
Atitudes de Esfinge incompreendidas!
Vertigem dos abismos! Precipícios!
……

Montanha que o Sol veste de oiro e rosas!
……

Serra que és minha apenas, e do céu,
Amo-te, desde o instante extraordinário,
Em que teu vulto cósmico se ergueu
Ante os olhos que têm as minhas lágrimas!

……
Amo-te, ó Serra, em tudo o que tu és!
Amo-te, desde a rocha que em ti sofre
Ao tojo bravo e à urze tão mesquinha
De que sempre te vestes, porque, enfim,
Tu és grande, e, portanto, pobrezinha!

(in Marános)

Natureza e humanidade inspiram a Pascoaes um mesmo sentimento de identificação com a alegria e o sofrimento de todas as criaturas:

A uma fonte que secou

Com teus brandos murmúrios embalaste
O decorrer dos meus primeiros dias.
E pelos teus gemidos os contaste;
Eu era então feliz e tu sofrias.

As minhas velhas árvores regaste,
O meu jardim de Abril reverdecias
E, quando as tuas lágrimas choraste,
Como a dor que hoje sofro, entenderias!

Mas, ai, tudo mudou! Longa estiagem
Bebeu, a arder em febre, as tuas águas;
Versos de água cantando a minha imagem.

Raios de sol que as fontes evaporam,
Levando para Deus as suas máguas,
Secai também os olhos dos que choram!

(in Terra Proibida)

As árvores, vistas muitas vezes como simples objectos utilitários que podem ser abatidas com ligeireza para darem lugar a qualquer outra utilidade julgada mais urgente, não podiam deixar de inspirar a Pascoaes um sentimento de… fraternidade:

As árvores (fragmento)

……

Ó árvores piedosas,
Pelas manhãs formosas,
Quando etéreo fulgor, que se anuncia,
Vossas lágrimas muda em risos de alegria!

Bendito o vosso corpo imaculado
A arder, num lar sagrado.
Bendito o fruto e flor, que vem dos céus,
Minhas irmãs em Deus.

(in Vida Etérea)

Este franciscanismo que se amplia ao mundo vegetal, para alguns incompatível com uma atitude mental moderna, não é senão o moderno eterno revelado na crise ecológica universal que hoje se manifesta e que, por contraste, traz a uma luz perene a via para a solução da crise, que o modernismo simplista esqueceu: a fraternidade cósmica que abraça criaturas humanas e criaturas não humanas, animais, vegetais, mesmo as rochas e as pedras, num parentesco comum. Tema tão presente em tantos autores que se debruçaram sobre a situação da humanidade nesta era de destruição aparentemente imparável, sobretudo em autores de língua inglesa. Noutra linguagem, é certo, mas jorrando de um fundo comum.

Tudo isso se resume na resposta de uma ave interrogada pelo poeta:

Uma Ave e o Poeta
(dois últimos tercetos do segundo dos dois sonetos que constituem este título)

Sonho a perfeita e mística alegria!
Desejo ser a alma da harmonia,
Que toda a terra e todo o espaço inflama!

Quero ser o Infinito e a Eternidade;
Não ser a estrela e ser a claridade;
Ser apenas o Amor, não ser quem ama.

(in As Sombras)

Curtíssima Antologia realizada e comentada
por José Carlos Costa Marques

3. Nota biobibliográfica sucinta

Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos nasceu a 2 de Novembro de 1877 no centro da vila de Amarante. A família muda-se pouco depois para a casa de Pascoaes, na freguesia de Gatão, Amarante. Pela ligação ao lugar virá a assinar os seus escritos como Teixeira de Pascoaes.
Em 1895 publica o seu primeiro livro de poesia, Embriões, que depois destruirá. Vai estudar Direito para Coimbra e inicia a publicação de uma extensa obra poética e ensaística, de que se destacam Belo, Terra Proibida, Vida Etérea, Sombras, Marános, Regresso ao Paraíso, e biografias em prosa dedicadas a São Paulo, Santo Agostinho e Napoleão, além de numerosas outras obras.
Escreve poesia e prosa na revista A Águia, fundada em 1910, onde publicou até 1915 textos que viriam a ter enorme repercussão na cultura portuguesa. Criador da filosofia e poética do saudosismo, o seu livro Arte de Ser Português, de 1915, exprime a sua concepção original de Portugal. O movimento da Renascença Portuguesa e a revista do mesmo nome, que teriam grande significado cultural, levam também a sua marca. Faleceu a 14 de Dezembro de 1952 na velha casa de Gatão, onde viveu quase toda a vida.

4. Artigo de António Cândido Franco no n.º 5 de Ar Livre sobre Teixeira de Pascoaes

Página 1, Página 2, Página 3, Página 4

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Um comentário até agora.

  1. Maria N. diz:

    Muito interessante ler o artigo e ficar a saber mais sobre este grande Escritor, grande Poeta – e sobre a sua obra.

    A viagem agora organizada à Casa de Pascoaes e à freguseia que corre o risco de ser submersa, é uma iniciativa importante e inteligente.

    Cumprimentos a todos e até breve,
    Maria A. Neves

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