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Isto é um relato de uma expedição ao rio Sabor, realizada este ano por mim e um grupo de amigos.

Desde que comecei a participar nos encontros da Plataforma Sabor Livre que tinha vontade de conhecer este rio da melhor forma possível. Com o passar do tempo isso tornou-se mais urgente com a aproximação do projecto de construção da barragem do Baixo Sabor…

Um rio é uma corrente de água que segue um trajecto bem definido. Portanto a melhor forma de o conhecer é acompanha-lo desde a nascente até a foz! Já uma vez tinha feito esta descida de kayak. Mas desta vez queríamos ir sem pressa por isso optamos por fazer a viagem a pé.

O rio Sabor nasce na Serra de Montesinho e vai desaguar no Douro. É conhecido pela sua extraordinário biodiversidade. É um dos últimos rios não represados e é provavelmente aquele que se encontra mais próximo do estado natural em Portugal. Esta prevista a construção de uma barragem próximo da sua foz, apesar dos protestos dos ecologistas e da comunidade científica. Esta barragem irá provocar danos irreversíveis no vale.

Esperamos com esta viagem mais uma vez chamar a atenção para o Sabor, e talvez convencer outras pessoas a ir visita-lo enquanto podem!

É sempre interessante fazer-se ao caminho sem saber exactamente o que se vai encontrar pela frente. E isso é mais verdade num rio conhecido por estar ainda em estado Selvagem!

Parte I

O objectivo desta viagem foi percorrer apenas o Baixo Sabor, que é a parte que será afectada pela barragem que já entrou em construção. Outro dia voltaremos lá para fazer o Alto Sabor.

O ponto de partida escolhido foi a foz do rio Maças, perto da povoação de Junqueira, concelho de Mogadouro. Este ponto divide o rio aproximadamente em duas partes iguais. Chegamos lá de boleia a partir de Bragança, pois a zona é mal servida de transportes públicos. Isto foi feito no mês de Junho em que o calor ainda não é muito intenso.

O grupo era constituído por oito pessoas, vindas de diversos pontos do país, sendo de notar a presença de três madeirenses.

O plano inicial era chegar à foz em quatro dias. A distância ao longo do rio seria de aproximadamente 70 quilómetros. Mas como se vai saber mais a frente, o plano acabou por ser dividido em duas partes.

Chegados à foz do Maças, começamos o percurso pela margem esquerda, seguindo um trilho pedestre. Por vezes o trilho desaparecia e tínhamos que encontrar passagem por entre o mato, ou subir e descer as rochas. Outras vezes o caminho se alargava, com sinais de que aquela zona era acessível a tractores e outros veículos.

Quando a margem se transformava numa parede de pedra éramos obrigados a afastar-nos do leito do rio e subir a encosta, para contornar o obstáculo. Mas é sempre bom observar a paisagem segundo perspectivas diferentes.

Existem nesta zona vários sinais de presença humana, como quintas e olivais. Mas foi raro encontrar outras pessoas, excepto na própria foz do Maças que costuma ser frequentadas pela população local.

A primeira noite passamos numa pequena praia fluvial. Dois membros do grupo fizeram uma caminhada adicional de algumas horas para buscar água à aldeia mais próxima. As dormidas foram sempre feitas ao ar livre, pois as tendas são pesadas para carregar.

No dia seguinte continuamos pelo mesmo tipo de paisagem. Num certo ponto tivemos que atravessar para a outra margem. O rio naquela época do ano ainda apresentava alguma corrente mas era fácil encontrar sítios onde atravessar.

Alguns quilómetros mais à frente tivemos a companhia da Estrada Nacional 216, que cruza o rio um pouco mais à frente, na ponte de Remondes. Ao ultrapassar uma curva do rio avistamos este que era um dos marcos mais importantes da viagem. Esperávamos alcançar a ponte no início do segundo dia mas as contas tinham sido mal feitas e as dificuldades do terreno menosprezadas. A progressão era lenta, mas ninguém tinha pressa porque estávamos ali para usufruir e isso era mais importante do que chegar à foz dentro do prazo. Também fizemos muitas pausas para descansar e tomar banhos no rio, porque afinal era por causa dele que estávamos lá!

De notar que a ponte de Remondes já fica na zona de influência da albufeira mas não vai ficar submersa. (Embora, segundo dizem talvez isso aconteça numa segunda fase do enchimento da albufeira…)

Pouco antes da ponte, passamos pela foz do rio Azibo, um dos principais afluentes do Sabor. Tivemos outra vez oportunidade de nos abastecer de água. Este era um problema sempre presente, pois no verão é difícil encontrar água potável. A maior parte das vezes a água era tirada dos ribeiros e tratada com pastilhas de iodo de prata.

A segunda noite passamos na casa semi-acabada/abandonada que existe ao lado da ponte. Recebemos a visita de um amigo que veio de carro trazer mantimentos. No início a expedição era para ser autónoma mas depois fizemos essa mudança de planos. Alguns de nós queriam também conhecer o Sabor mas não se sentiam em condições de fazer o percurso todo a pé.

A seguir tivemos um dia intenso de corta-mato, novamente pela margem esquerda que foi a que nos pareceu mais fácil. O objectivo nessa altura tinha sido redefinido. Já não era a foz mas Santo Antão da Barca, um local emblemático que alguns dos de nós já conhecíamos bem.

A terceira e última noite foi passada numa praia fluvial. No dia da despedida apanhamos um pouco de chuva e ficamos pela aldeia de Santo André. Este ponto, viemos a descobrir depois, fica pela metade do percurso que estava inicialmente previsto. Assim ficou assegurada outra viagem igualmente interessante para quando decidíssemos  regressar.

Parte II

Ficou o objectivo final por cumprir, que era terminar o percurso do Baixo Sabor, e chegar até a foz! Como muitas vezes acontece, foi difícil voltar a reunir o mesmo grupo para a parte II. Esta acabou por acontecer com um grupo de quatro pessoas, no mês de Outubro!

Desta vez não tivemos um “carro de apoio” por isso tivemos que levar os mantimentos para os quatro dias que contávamos estar por ali. Não existem povoações ao longo do percurso, apenas em alguns quilómetros de distância. Também tivemos que ir preparados para a possibilidade de chuva, o que de facto aconteceu.

O ponto de partida foi a já conhecida aldeia abandonada de Santo André. Numa noite de sexta-feira viajamos de camioneta desde o Porto até Mogadouro e aí num café local procuramos alguém para nos levar de carro até a aldeia!

Como tínhamos previsto, o rio estava seco. Era uma sucessão de lagos. Nunca ouvimos o barulho da corrente nestes dias de Outono em que estivemos lá!

Também foi mais difícil encontrar água. O que nos valeu foi encontrarmos pastores pelo caminho, que davam sempre indicações preciosas sobre o terreno.

A noite inicial, passamos em Santo André. A segunda em Santo Antão da Barca (ao lado duma torneira com água), a terceira dentro das tendas montadas na aldeia abandonada de Cilhade, e a quarta numa casa abandonada que encontramos no meio da chuva já próximos da foz.

Em alguns sítios vimos eucaliptais que também começaram a invadir o vale do Sabor. São plantados acima da quota de enchimento da albufeira, o que deixa adivinhar o tipo de paisagem que se poderá encontrar lá no futuro.

Foi no dia três, uma segunda-feira, que atravessamos o estaleiro de obras da barragem. Estavam muito mais adiantadas do que esperávamos. Num certo ponto fomos interpelados pelos responsáveis da segurança que não nos queriam deixar continuar. Aceitamos a boleia de carro até ao fim do estaleiro de obras, uns 2km mais abaixo.

A partir daí foi das partes mais bonitas da viagem. Era a “zona selvagem” que tínhamos assinalado no mapa! Brevemente ela também será o palco de outro estaleiro de obras… O vale era escarpado e andamos por caminhos de cabras e de pastores. Chegamos ao que parecia ser uma estação meteorológica abandonada e por curiosidade só nesse momento começou a chover… Assim não pudemos apreciar os últimos quilómetros do percurso nas melhores condições.

Um pouco mais à frente, no Pocinho, apanhamos um comboio de regresso para o Porto!

Para acompanhar, pode ver uma colecção de imagens tiradas pelo grupo durante os oito dias que a expedição durou!

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7 comentários até agora.

  1. Nuno Pereira diz:

    Paisagens únicas. Excelentes fotos. Concerteza um passeio a realizar no curto prazo. Se souberem de um ou organizarem um, publicitem-no no site sff. Um Abraço

  2. Márcio Guerreiro diz:

    Há muito que desejo visitar esta zona do país. Quero percorrer apenas o Baixo Sabor, que é a parte que será afectada pela barragem e gostava de saber se, de alguma forma, é possivel disponibilizar cartografia ou esquema da vossa espedição em 2009 para evitar de andar perdido. Muito Obrigado

  3. admin diz:

    olá Marcio,
    nós já conheciamos alguns sítios, das visitas que tinhamos feito ao rio Sabor.

    O resto foi preparado na medida do possível com base em cartas militares (penso que nem eram as mais recentes). Deu para ter uma ideia de em que partes tinhamos caminhos e onde iamos ter que fazer corta-mato, as zonas em que o vale era mais escarpado, e também, onde tinhamos povoações perto. De resto, tivemos que descobrir no terreno.

    Se quiseres avançar posso dar algumas informações uteis que aprendemos , como sítios onde arranjar água e abrigos (contacta-me : danielpc@fastmail.fm)

  4. Paulo Santos diz:

    Bom dia!
    Há cerca de um mês, fui procurar o Sabor. Não sou trasmontano, vivo no centro do país, mas a angústia da perda anunciada e o amor pela Natureza puseram-me a caminho, acompanhado pela minha Namorada que partilha os mesmos gostos. 1º destino: Mogadouro. Depois guiados por um mapa de Portugal procurámos o fino fio azul que ficava situado, algures, a noroeste de Mogadouro, sendo o povoado mais próximo do mesmo, Santo André. Não conhecíamos o passado da aldeia, até pensámos que talvez desse para almoçar lá, alguma mercearia ou Café, pensámos.. E fomos. Carro estacionado no topo da encosta que a descida é íngreme,pernas ao caminho. Foi um percurso de cerca de 4 km. Uma tarde quente, as encostas pintadas das mais belas cores(estávamos em plena primavera), flores com formas geométricas espantosas e um perfume incapaz de ser reproduzido por qualquer Casa de perfumes.Muitas aves (pombos das rochas, suponho. Após muitas curvas, subidas e descidas, surge, numa curva apertada entre 2 encostas, um fio prateado – êi-lo, o Sabor! Sentámo-nos e ficámos a olhá-lo algum tempo. Queríamos ficar com ele porque sabemos que vai destruído. Ao fundo, alguns telhados – a aldeia de Santo André. Vamos andando porque até já temos fome! Cada vez mais embrenhados na paisagem e a natureza cada vez mais viva. Sentíamo-nos entusiasmados. Que sorte têm estas pessoas em viver na natureza e em paz e… Desolação. Alguma angústia.. Abandono. A rua da aldeia foi invadida por ervas e silvas. Casas de xisto centenárias, uma delas com data na ombreira de 1896, que já não suportam o peso dos anos passados. Têm as janelas abertas mas os vidros estão partidos. Uma capela,que em outros tempos fora centro da vida da aldeia seguramente, não tinha portas nem janelas, nem altar, nem Santo padroeiro.. Uma fonte com torneira aberta água cristalina que não matará a sede a mais ninguém.. E o rio, ao fundo do quintal de algumas dessas casas, era a única coisa viva nessa aldeia. Um fragor intenso e águas limpas.
    Nesse local aldeia, Santo André, que outrora foi terra de gente feliz, sentimos a aproximação da destruição anunciada e da perda irremediável do Nosso património natural. A barragem vai trazer a gente de volta a esta aldeia? Não seguramente. Mas se o rio se mantivesse selvagem e o respectivo ecossistema intacto muitos mais amantes da Natureza buscariam estas paragens tal qual como nós. Até sempre Sabor!

    Paulo Santos

  5. daniel diz:

    este fim de semana é o v encontro pelo rio Sabor!
    http://www.aldeia.org/portal/PT/5/EID/162/DETID/1/default.aspx

  6. José diz:

    estou a planear com mais 2 amigos fazermos esta caminhada pelo rio sabor e depois de ler estas linhas com mais vontade fiquei mas ainda não conseguimos arranjar track do percurso. Teem para disponibilizar? obrigado

  7. José diz:

    teem track do percurso para disponibilizarem pois pretendo fazer esta caminhada agora em Agosto? thanks

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