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por Alexandra Malheiro (in Público -Local 02.07.06)
«Desde sempre me habituei a chamar de “cidade cinzenta” à minha cidade natal. Caracterizado pelo granito e o nevoeiro, a cor cinza marca o rosto do Porto. Há, porém, uma luz coada pela névoa que é especial, aquecendo e animando os que nela residem. É este o Porto dos meus afectos.

Nos tempos que correm, esta asserção sobre o cinzento deixou de ser poética, passando a ser factual ou, se metafórica, não se refere à aura da névoa matutina, mas, antes, ao cinzentismo que acometeu a vida desta cidade, fruto da inépcia dos que a governam.


Agora, a cidade empardeceu de vez, com a sua “sala de visitas”, os Aliados, transformada numa pista mate sem graça e sem verdura, alienada que foi a memória colectiva dos banquinhos vermelhos em torno dos canteiros e das noites de S. João, onde, de costas sobre a relva, se esperava o fogo-de-artifício. A beleza tão invulgar da calçada portuguesa substituída por paralelo! A avenida transformou-se num longo corredor cinzento e inóspito, onde não apetece permanecer, encimada por uma piscina demasiado pequena para saltos e feitos olímpicos e demasiado grande para tanque comunitário (…).
Tenho esperança de que um ou outro skater mais afoito passe a usar a avenida como pista de treino! (…)
Junto à câmara, qual reminiscência, permitiram ao Garrett que o debruasse um canteiro e, em vez de uma cascata, neste S. João, ficámos apenas com um santinho pequenino, ele próprio prestes a mergulhar numa piscina minimalista, assim o ajude o vento!

A avenida é, afinal, o verdadeiro retrato desta cidade de agora, a cidade cinzenta que vê morrer a sua cultura, a cidade que vê partir para a outra margem do Douro desde investimentos de monta ao campo de treinos do clube maior da terra, e se vê ameaçada de até a Feira do Livro mudar de armas e bagagens. Esta cidade que é cada vez mais silêncio, solidão e vazio. É esta cidade que, vergonhosamente, esqueceu o aniversário de morte de Eugénio, o seu maior amante e glosador! Nem um gesto, nem uma linha! Vergonhoso!
E em não havendo cascata… resta-nos partir para Gaia e ficar de lá a mirar a cidade descendo em socalcos até ao rio. “Ver-te assim abandonada/ nesse timbre pardacento…”»
Alexandra Malheiro
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3 comentários até agora.

  1. Anonymous diz:

    –valha-nos a memória ….

    Xálimão

  2. MSoareses diz:

    E que lagrimas me inundam os olhos quando a saudade e a distancia se unem com a desolacao de saber que os nossos lindos Aliados caiiram de de borco sob o “Sinzento” do Siza…como e possivel? Um artista tem direito a ter os seus altos e baixos…quem nao tem direito a impor esses baixos sao os ainda mais baixos (em qualidade) responsaveis por governar esta nossa Invicta. Valha-lhes a vergonha…

  3. Humilde Serva de Clio diz:

    Concordo inteiramente com cada palavra e subscrevo. A remodelação é um crime que ficou impune. Quem o paga é a cidade que ficou mais triste, mais descaracterizada, mais pobre. São os cidadãos. Lamentável e revoltante.
    Saudações de uma portuense

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